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Negacionismo do holocausto: a história não o absolverá


Bule Voador 28 Jan 2012, 12:00 am CET

Post republicado em função do Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto (27/01)

Podcast sobre negacionismo

Fonte: Fronteiras da Ciência do Coletivo Ácido Cético da UFRGS

Cena do filme “A Lista de Schindler”:

 

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Pronunciamento do Presidente da LiHS - Liga Humanista Secular


Uma ateia de bom humor 26 Jan 2012, 9:04 pm CET

 [por Eli Vieira] Estamos preocupados com o nível crescente de intolerância manifestada por ateus no facebook. Numa página com dezenas de milhares de curtidores (pessoas que apertaram um botão), lemos: "A religião, como sempre, dilacerando famílias" Será mesmo? Religião se reduz a cristianismo? Cristianismo se reduz a fundamentalismo? Todo cristão segue cegamente e literalmente o que está escrito na Bíblia, sobre Jesus vir para voltar um contra o outro em famílias? Não parece justo tratar todos os religiosos dessa forma (que, queiramos ou não, se identificam pessoalmente com suas crenças - da mesma forma que a maioria dos ateus, admitindo ou não). Pedimos encarecidamente aos ateus, mesmo os não humanistas, para usarem o método da vovó: diriam o que estão dizendo no Facebook à sua provável vovó religiosa? Não "dilacera famílias" este comportamento? Certa vez, um leitor reclamou no Bule Voador que, quando o blog aceitou dois editores cristãos, estava tomando um caminho sem volta. É verdade: tomamos um caminho sem volta pela tolerância, pelo secularismo como uma convivência de crenças (sendo o ateísmo uma delas, queiram ou não). Questões racionalistas sobre a existência de entidades inefáveis são temas legítimos de debate, mas para quem adotou o debate racional como valor em sua vida, o que não é obrigatório. Aliás, tentar forçar alguém a adotar o racionalismo é a atitude que mais vai na contramão dele mesmo. Espero que no "dia do orgulho ateu" alguns ateus tenham mais motivos para orgulho do que para vergonha ao ver como se comporta a comunidade ateísta. Como alguém que debate exaustivamente o tema na internet desde ignotas eras pré-orkut, não sei mais se ser ateu é motivo de orgulho para mim. P.S.: Apoiamos e até possivelmente financiaremos o dia do orgulho ateu. Mas por que 12 de fevereiro, nascimento de Darwin, se Darwin jamais foi ateu? É por causa da teoria da evolução que derrubou mais uma vez o argumento criaconista? Então por que não 1º de julho, data da publicação do artigo conjunto de Darwin e Wallace na Royal Society em 1858? Sinceramente, E.V. **************************************************

Guest post - Carta aberta à ATEA


Uma ateia de bom humor 26 Jan 2012, 8:52 pm CET

[por Brega Presley] Sou, e é melhor deixar isso claro de início, ateu. Também que fique claro, o que será opinado aqui não deve ser visto como uma “demonização” da ATEA. Entendo que basta de maniqueismos e extremismos, e não faria sentido algum a crítica se ela fosse feita usando dos mesmos recursos que se questiona em outros modelos de cosmovisão. A ATEA tem feito coisas interessantes. E tem errado ao mesmo tempo. Não cabe a mim enaltecer os acertos aqui, mas apontar erros que tem passado desapercebidos e que precisam ser levados, no meu entender, a sério. Então vamos lá: Tenho observado com enorme preocupação as repetidas tentativas de grupos de ateus atrelarem o ateísmo a figuras publicas e conhecidas. Desde o Sr. Daniel Sottomaior (única voz que parece existir dentro da ATEA para fins de comunicação, o que não corresponde a realidade, mas arrisca-se a moldar uma imagem por demais personalizada da entidade), seja em ações de caracter duvidoso, como a recente imagem de uma atriz Hollywoodiana agindo em prol de crianças na Africa, ou mesmo a realmente ruim escolha de um dia de protestos para o dia do nascimento de Darwin (12 de fevereiro). É uma tática de popularização do ateismo ruim. Cria um tipo de reverência a personalidades e sua condição ateísta, tornando , no caso da atriz, por exemplo, o fato de ela ser ateia mais relevante do que suas ações. No caso do cientista, como levantado por outras pessoas, o que Darwin fez de relevante não foi ter nascido, mas estudado e publicado “A Origem das Espécies”. Do mesmo modo, quando se defende um “Newtal” (natal no dia do nascimento de Newton, por sinal dia 25 de dezembro), estamos comprando a ideia de um ateísmo pequeno, menor, que precisa se notabilizar ancorado no carisma de algumas pessoas, e não por ideias defendidas, ou mesmo pela simples laicidade garantida por lei, e que não privilegia o ateísmo, mas a tolerância.
Como podemos falar de igualdade quando vemos outdoors tão maniqueístas como os piores apresentadores de programas “espreme e sai sangue”? Se a mensagem é “Crença não define caráter” é paradoxal que exemplos positivos e negativos sejam dados atribuindo a ateus o papel de bons e antagonizando-os com religiosos “malvados”. Melhor seria um ateu sacana ao lado de um religioso sacana, ou um ateu “do bem” ao lado de um equivalente religioso. Isso nos dá uma cara diferente, tolerante, explica o argumento ao invés de se fazer polêmica para gerar um debate de péssima qualidade. Assim, peço, ou que deixem claro que representam ateus, mas não OS ATEUS em sua totalidade, ou que, no mínimo, tragam maior reflexão a discussão. Não pertenço a nenhuma associação de ateísmo, e certamente não a ATEA, mas creio que nada custa ouvir outras vozes. Melhor um ateísmo feito por poucas pessoas, porém sensato, do que um com muitas pessoas e que arrisque-se a cometer o mesmo tipo de erros que algumas religiões cometeram no passado. O estado é laico, não ateu. Laicismo significa tolerancia. É possivel, sim, se lutar em prol dos proprios direitos sem nos impormos aos direitos dos demais. Pensadores-livres são aqueles que, entre outras coisas, podem agir sem as amarras de preconceitos. Se erros forem cometidos, que sejam novos, e não os mesmos de sempre. Gente para errar como sempre já nos basta no mundo, pois não? Grato pela sua atenção, e por tomarem providências para fazerem do ateísmo algo maior e melhor, algo que certamente serão capazes se assim desejarem. 
 
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Manual da LiHS: Como organizar um evento Skeptics in the Pub (#SiTP) / Taverna Cética


Bule Voador 26 Jan 2012, 8:09 pm CET

Da Conselho de Eventos da LiHS

Somos seres racionais, capazes de elaborar um sistema de aceitação e rejeição de proposições: o ceticismo.

Sua mãe é capaz de prever através de sonhos se você vai ter uma desinteria ao comer acarajé? Suas pílulas de açúcar e seus frascos de água agitada e diluída sobre mais água curam moléstias do corpo e da mente? Suas agulhas espetadas sobre pontos mágicos do corpo substituem a fisioterapia? Jura que os seres vivos foram fabricados na linha de montagem do pai celeste dos hebreus?

Você pode ser uma pessoa muito legal e acreditar sinceramente nisso tudo, mas para fazer um cético aceitar essas coisas vai ter que fazer melhor do que dizer que funcionou para a prima do filho da sogra do amante daquele seu amigo que me emprestou um real aquela vez.

Céticos gostam de seu conhecimento do jeito que nutricionistas gostam da comida: bem preparada, fresca, com ingredientes de boa procedência, e nutritiva na medida certa para garantir a continuidade da saúde. Desculpe, mas essa história de que seu amigo nerd consegue fazer um moto-perpétuo é o equivalente epistemológico de salada de maionese estragada: eu é que não vou engolir esse troço.

Mas (mas?) também somos seres sociais. Mais (menos?) que isso: somos primatas peludos, flatulentos e carentes, que adoram gastar seu tempo se divertindo das formas mais ineficientes e absurdas que a vã filosofia jamais imaginaria (conhece 9gag? Frisbee? Caça-níqueis? Badminton? Vídeos de gatinhos e cãezinhos no YouTube? …).

Razão e Diversão: por que não juntar as duas coisas? É para isso que acontecem, regularmente, mas à moda do andar do bêbado, em mais de 60 cidades no mundo todo, os eventos Skeptics in the Pub (SiTP).

A gente ainda não escolheu qual é a tradução melhor. Usamos semvergonhamente o termo “Taverna Cética“. Os menos pomposos preferem “Céticos no Boteco”, os mais carinhosos, “Céticos de Botequim”. Digamos que neste assunto estamos ainda em discordância para termos uma desculpa para nos vermos mais uma vez no boteco e debater em torno do suco de cevada.

Por enquanto, no Brasil, só existe em Porto Alegre, organizado pelo Coletivo Ácido Cético e por nós aqui da LiHS. Mas queremos entusiasmar você a organizar na sua cidade: todos só têm a ganhar! Bem… na verdade alguns podem perder a fé em homeopatia, reiki, conscienciologia, “cura quântica”, astrologia, florais de Bach, Deus… mas o que são essas besteirinhas frente a ganhar amigos, e amigos inteligentes, e amigos que continuam inteligentes mesmo perdendo alguns neurônios para a cerveja? (Mas tem alguns céticos que nem em cerveja acreditam e ficam só no suco mesmo.)

Aqui está o fruto da nossa experiência de 6 eventos e centenas de participantes: um manual para organizar um SiTP aí na sua cidade:

atheis.me/manual-sitp-1

Bons bares, boas conversas, sempre com bom humor e moderação!

Veja mais fotos como esta em LiHS – Liga Humanista Secular do Brasil

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Os céus amigos do ganso que voa de cabeça pra baixo


Ceticismo.net 26 Jan 2012, 3:25 pm CET

Enquanto a United ficou famosa por entregar seus passageiros em seus locais de trabalho (desculpem, não resisti, mas duvido que algum passageiro ofendido venha reclamar), o mundo natural acha que esse negócio de asa, planos de voo e linha do horizonte é coisa pra fracos e galináceos (sim, eu sei). Hardcore mesmo é fazer piruetas no ar like a boss. Qualquer um que voe de asa delta pensa assim, o fato de acabarem caindo mostra que eles têm muito a aprender com o amiguinho aí da foto.

Gansos possuem um temperamento peculiar. Um PÉSSIMO temperamento peculiar (quem tomou uma corrida de um ganso quando criança sabe do que estou falando). São muito bons nadadores, o que desmente a ficção que eles podem se afogar facilmente, e excelentes vigias para uma casa. Entretanto, uma coisa que pouca gente sabe é que eles são exibidos e gostam de se mostrar quando voam. Alguns deles simplesmente voam de cabeça pra baixo!

O vídeo acima foi filmado por Hans van de Koning e Lodewijk Eekhout, e lhes rendeu o primeiro prêmio em um concurso organizado pelo grupo de Artistas de voo na Universidade de Wageningen, na Holanda. No total, foram mais de 2000 vídeos feitos e os finalistas foram estes aqui.

Se gansos tivessem blogs, algumas pessoas estariam xingando-os por se exibirem e enchendo o saco que eles deveriam ser humildes e não dar mostras de sua "superioridade". Bem, ninguém manda eles conseguirem dar piruetas assim durante o voo e você não. Longe apenas de ficarem "se mostrando", a torção do corpo serve basicamente como um modo de redução de velocidade e reduzir a altura de modo rápido. Observando o vídeo, vemos que a velocidade de reprodução dele foi reduzido, dada a rapidez do voo; mas mesmo que seja só para se mostrar, fica-se a palavra de quem realmente entende do assunto: "Is a bird showing off when it flies?"

PS. A foto não é photoshop.


Fonte: New Scientist

Roberto Cavalcanti acusa: Ateus são "gente abominável"


Uma ateia de bom humor 26 Jan 2012, 11:18 am CET

 **************************************** No dia 9 de junho de 2009 aquele blogueiro fez a seguinte postagem:
Começa assim:

 "Ultimamente nosso Brasil vive de respirar más notícias. Os anos de chumbo não foram aqueles da época da ditadura. Os anos de chumbo são esses de agora: anos de completa inversão dos valores, anos governados não por gente bem intencionada, mas por bandidos disfarçados. Nessa nova era, governada por estes bandidos, nossas liberdades cada vez mais se definham, ameaçadas pela pressão política de grupos de gente abominável, como ativistas ateus e homossexuais. Ambos têm em comum a bandeira política do egoísmo, seja demandando pseudo-direitos à guisa de suas práticas sexuais ou de sua descrença religiosa."
Como podem ver, a aparente intenção dele sempre foi a de atingir o movimento ateista como um todo, acreditando que atingindo a minha pessoa ele conseguiria o seu intento.
MAS, houve uma circunstância que mostra que isso não é totalmente verdade, que existe na realidade uma antipatia pessoal dele por mim, e que tem origem em circunstâncias das mais fúteis. Essa necessidade de me atingir de forma pessoal diz muito a respeito da personalidade daquele blogueiro. Muito antes de eu fazer parte da UNA ele já havia me acusado em uma comunidade do Orkut por causa da reportagem na Veja. Na época eu respondi, esclarecendo a questão na dita comunidade da mesma forma que fiz há algum tempo aqui no meu blog. O que fez esse blogueiro tão "ético"? Ignorou solenemente o meu esclarecimento e disse que só o levaria em consideração se eu processasse a revista por ter publicado a informação errônea (sic!). Só que a reportagem foi em 2002 e já haviam se passado pelo menos cinco ou seis anos desde então. E ele conseguiu transformar uma declaração inócua em uma tentativa deliberada de enganar, de "ludibriar", como se não houvesse muita gente que está nessa mesma situação (embora não fosse o meu caso, como já expliquei) justamente devido ao preconceito da sociedade. Nas próprias palavras dele:
"Querem, sob a bandeira do ateísmo, granjear poder político para que a população católica e cristã tenha subtraídos os seus direitos de manifestarem seu repúdio ao ateísmo e, com isso, tolher qualquer ação proselitista. Querem cadeiras nas casas legislativas do país para impor leis ímpias sobre a população cristã, não obstante o descontentamento da população, que já declarou em massa não votar em políticos ateus, ou seja, depois da ditadura gay que se avizinha, ainda vem por aí a ditadura ateísta."
Ele se contradiz, na verdade. Quem, nas circunstâncias que ele descreve, não se fingiria de religioso por uma questão de sobrevivência? Frisando mais uma vez que não foi isso que eu fiz!
O interesse desse blogueiro não é nem nunca foi a verdade. O interesse dele é usar qualquer informação de forma distorcida para atingir os seus objetivos, que é tentar atingir TODOS os ateus.
Observem nessa postagem:
"Como se observa na parte em destaque, Asa Heuser e seu marido enganaram todo mundo. Enganaram a si mesmos, enganaram a comunidade luterana e enganaram seus filhos. Enganaram a si mesmos pois eram ateus e simularam-se luteranos simplesmente para não perderem clientela! Enganaram a comunidade luterana simulando uma fé que não nutriam. E enganaram seus próprios filhos batizando-os na fé luterana, única atitude louvável, aliás, pois um dia seus filhos podem cair em si e, com o batismo, ser salvos da loucura do ateísmo. Esta, enfim, é a ética ateísta: enganar todo mundo a qualquer custo, e Asa Heuser não perdeu essa oportunidade."
Na postagem abaixo ele aproveita a noticia de uma pesquisa e divulga o seu veneno mais uma vez:
http://roberto-cavalcanti.blogspot.com/2011/12/religiosos-nao-confiam-em-ateus-afirma.html#links
"(*) Como confiar em ateus, se, por exemplo, essas pessoas emprestam apoio incondicional a líderes envolvidos até o pescoço com pedófilos, como é o caso de Asa Heuser, que encontrou solidariedade entre ateus, não obstante o envolvimento com Haroldo Galves, que acabou preso e condenado por pedofilia? Como confiar em ateus, se a mesma Asa Heuser, líder de movimento ateu, afirmou ter ludibriado a igreja luterana simplesmente para que seu marido não perdesse clientela? Como confiar em ateus, se uma fração desproporcional de pessoas "sem-religião", entre as quais os ateus se inserem, está na cadeia? É tarefa assaz custosa confiar em ateus. Motivos não faltam..."
Em dezembro de 2011 fiz um comentário em uma comunidade de Orkut. Imediatamente ele printou e fez outra postagem em seu blog.
http://roberto-cavalcanti.blogspot.com/2011/12/ativista-ateista-volta-defender.html#links  "Que moral tem o movimento ateu para criticar Bento XVI se seus líderes exibem-se em público defendendo criminosos?"
Ignorando, é claro, o fato de que eu não defendi alguém que considerasse um criminoso, defendi alguém por achar que é inocente. (Sim, sei que ele foi condenado por possuir material proibido no seu computador, mas já esclareci tudo isso em postagens anteriores).
Enfim, ele me monitora 24/7.
Que fixação!  ***********************************
Ateus e grupos LGBT do Brasil, vão deixar que ele continue?
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O que um estupro NÃO é


Bule Voador 26 Jan 2012, 3:17 am CET

Autora: Natasha Avital

Este post foi inspirado em recentes reações, tanto da mídia quanto do público, ao ocorrido na semana do dia 18/01 no programa Big Brother Brasil. Pra quem não acompanhou, aqui vai um resumão (bem resumido mesmo, porque este não é um post sobre o BBB; é um post sobre o machismo geral presente em qualquer discussão sobre estupro): durante uma noite na casa onde ficam os participantes do Big Brother Brasil, uma das câmeras captou uma situação suspeita, onde aparentemente um rapaz fazia movimentos que indicavam sexo junto a uma moça que parecia estar desacordada. Embora a casa seja vigiada durante 24 horas por câmeras, e embora a imagem captada obviamente tenha sido o suficiente para fazer com que não uma, mas várias pessoas (inclusive membros da polícia e do Ministério Público, que estão investigando o caso) tenham suspeitado fortemente da ocorrência de um crime, ninguém foi mandado para averiguar a situação e interromper o que poderia ser um crime em andamento (não posso comentar sobre o vídeo em si, já que a Globo passou o dia seguinte inteiro removendo as imagens da internet, além de ter cortado, durante horas, o som das imagens transmitidas para assinantes pelo sistema Pay-Per-View.)

O apresentador do programa chamou o ato de “caso de amor”. Daniel foi expulso, sob a genérica acusação de “comportamento inadequado”. Boninho, diretor do programa, declarou que “Não houve estupro, a lei brasileira é que é muito ampla [ao classificar como estupro de vulnerável a prática de ato libidinoso contra quem não pode oferecer resistência]” e que o que está sendo apurado é se houve “abuso”.

Bastou o caso vir a público para que começassem os ataques contra a suposta vítima: ela estava bêbada, ela havia “trocado carícias” anteriormente com o rapaz, ela seduziu Daniel, ela armou tudo para tirá-lo do programa (eita jeitinho trabalhoso esse de eliminar um concorrente hein? Com quem a moça aprendeu a elaborar esses “planos infalíveis”, o Cebolinha?) A cereja no bolo veio quando a Geisy Arruda declarou que Monique também deveria ser expulsa da casa, afinal “uma mulher sempre sabe quando um homem está mexendo nela” (Srta. Arruda, a senhora sabe que as pessoas tem padrões diferentes de sono e que algumas, principalmente após ingerirem bebida alcoólica, não são facilmente despertadas por toques ou ruídos, certo? Talvez não seja de seu conhecimento, mas algumas pessoas até mesmo morrem dormindo durante eventos como desabamentos ou incêndios. Também é de se perguntar se a senhorita acredita que a tendência machista de punir uma mulher por ser vítima de violência também deve se aplicar a estudantes que precisam de escolta policial para sair da faculdade devido a seu vestido curto, e são posteriormente expulsas do estabelecimento de ensino, ou se Vossa Senhoria só aprecia as qualidades da pimenta quando ela se encontra no olho alheio).

Anteriormente, a participante Nayara havia comentado que Daniel a “bolinou” em sua cama durante a noite e, há cerca de três dias, uma modelo que morou e trabalhou com o ex-participante e a namorada dele na Itália, formalizou denúncia contra Daniel e declarou à imprensa que o rapaz a assediava constantemente e a violentou um dia enquanto ela dormia ..contagem regressiva para os gritos de “Ela só quer fama!” e “Por que não denunciou na hora então?”)

Enfim, o objetivo deste post é, em vista de demonstrações incontáveis de machismo e ignorância advindas do ocorrido, oferecer um curso básico sobre machismo e autonomia feminina denominado “O QUE UM ESTUPRO NÃO É”

ESTUPRO NÃO É COMETIDO SÓ POR ESTRANHOS. ESTUPRO NÃO OCORRE SÓ QUANDO A VÍTIMA ESTÁ ACORDADA. ESTUPRO NÃO ACONTECE SÓ QUANDO HÁ PENETRAÇÃO. 

 Como bem demonstra o comentário do Boninho (e as declarações da própria mãe da moça, que apesar de ter certeza que a filha estava dormindo, se recusa a chamar o ocorrido de estupro) tem gente que ainda insiste em dizer que estupro, estupro meeesmooo, é só aquele cometido por um estranho que pula dos arbustos no meio da noite e violenta brutalmente a mulher sob a ameaça de uma faca. É meio como dizer que lesão corporal meeesmo é só aquela que te manda pro hospital por três semanas e te deixa uma cicatriz pelo resto da vida. A forma mais extrema na qual um crime pode ser cometido é só isso: a forma mais extrema na qual um crime pode ser cometido. Dizer que só se pode chamar de estupro o tipo de violência mais brutal contra uma mulher, sendo que todo o resto é “abuso” ou tem outro nome qualquer, acaba reforçando a idéia de que existem alguns tipos de violência sexual contra a mulher que ”não são tão ruins assim”.

Essa percepção é um prato cheio para muitos estupradores, que premeditam seus crimes a fim de que não sejam encarados como estupros “de verdade” (pra quem não lê inglês, o resumo da ópera dos três posts acima é que mais de uma pesquisa realizada nos EUA aponta para o mesmo padrão entre homens que cometem o crime repetidamente sem enfrentar persecução penal: estuprar em circunstâncias que possam ser posteriormente representadas como “um mal-entendido” ou nas quais a mulher vai se sentir/ser apontada como culpada. Podem ir esperando tradução dos posts pras próximas semanas, ou então um post original escrito por mim ou pelo Guilherme Balan resumindo e comentando essas pesquisas).

ESTUPRO NÃO É SEXO 

Estupro não são “cenas tórridas de sexo”, como descreveu a VEJA desta semana na matéria de capa sobre o ocorrido no BBB…matéria de capa, diga-se de passagem, ilustrada com uma bunda, vestida no que aparece ser uma calcinha ou um biquíni. Ignoro se a bunda em questão é um frame do vídeo que documenta o suposto ataque (porque nada mais adequado ao falar sobre estupro do que eternizar um segundo daquela violência, expondo a imagem congelada de uma parte íntima do corpo da mulher vitimizada) ou se é apenas uma imagem genérica que a revista considerou adequada ao tema (porque nada mais adequado para falar de violência sexual do que uma imagem que evoca sensualidade, prazer, erotismo…todas essas coisas diametralmente opostas a um estupro).

Um estupro também não é um “rala-e-rola”, ao contrário do que foi dito por um certo jornal ao falar do caso BBB, e há linguagem muito mais adequada para descrever um ato de violência do que “foder uma pessoa”, ao contrário do que pensam certos pseudo-intelectuais que andam usando a tragédia pessoal alheia pra pagar de politicamente consciente “nas internets”.

Não existe ”sexo” do qual apenas uma pessoa participa! Se uma das partes está deixando claro que não quer estar ali ou, pior, não está sequer em condições de dizer se quer estar ali ou não, ninguém está ”fazendo sexo”.  Uma pessoa está usando um corpo, e a outra está tendo o corpo usado. Uma das pessoas está cometendo uma violência e a outra está sofrendo uma violência.

ESTUPRO NÃO É IGUAL A FURTO

Todo mundo já ouviu a máxima preferida dos defensores de estuprador de plantão: “Se a mulher vestir tal coisa/se comportar de tal jeito/sair a tal hora/andar sozinha em tal lugar e for estuprada, ela não pode reclamar. É como eu sair por aí balançando uma carteira cheia de dinheiro e depois reclamar que fui roubado.”

É perturbadora a facilidade com que se compara a violação do corpo e da mente de uma mulher, um ato que muitas vezes deixa sequelas psicólogicas para o resto da vida (além de todos os riscos associados á gravidez e á transmissão de doenças) com um simples crime contra o patrimônio. Se a melhor comparação que alguém encontra para “ter o corpo violado contra a vontade” é “ter dinheiro levado embora contra a vontade” então não devem restar dúvidas de quão pouco respeito nós temos pelo direito da mulher de decidir o que acontece com sua vida e com seu corpo.

Da próxima vez que alguém á sua volta proferir essa monstruosidade, ao menos peça que a pessoa use uma analogia adequada: afinal, sendo o estupro uma forma de lesão corporal, faz mais sentido afirmar que quem bebe demais não pode reclamar ao acordar com seus dentes sendo arrancados ou que quem vai para a casa de alguém que não conhece direito não pode reclamar se tiver o braço quebrado. A depender da brutalidade do estupro hipotético/real sendo justificado, cabe perguntar se a pessoa em questão considera que  “vacilo” da vítima também poderia ser usado como atenuante caso tivesse ocorrido, em lugar de uma violência sexual, a remoção de um rim, uma perna ou um pênis.

Sim, um pênis. Porque importantíssimo nessa hora é questionar se a comparação em questão também vale para homens ou se apenas o corpo feminino vira propriedade pública em certas circunstâncias.

ESTUPRO NÃO É UM CRIME CAUSADO PELA VÍTIMA  

Quando se tem uma pessoa PRATICANDO uma ação e outra SOFRENDO esta ação, o caminho lógico para avaliar os motivos desta ocorrência deveria ser se concentrar na pessoa que pratica o ato. No entanto, discussões sobre estupro parecem sempre se focar na vítima, no que a pessoa estuprada fez ou deixou de fazer para que o estupro ocorresse.

Mulheres de todos os comportamentos, idades, orientações sexuais, religiões, tipos físicos e estilos de vestimenta são estupradas. Estupros acontecem em teocracias islâmicas e nos países mais desenvolvidos do planeta, nos casebres mais miseráveis e nas mansões mais luxuosas. A essa altura, já devia ter ocorrido a alguém que o único fator que todos estes crimes tem em comum é a presença de um estuprador.

O ESTUPRO NÃO É CULPA DA MULHER SÓ PORQUE…

Sabe de uma coisa? Eu não deveria nem ter que completar essa frase. O estupro não é culpa da mulher. Ponto. O estupro não é culpa da mulher. Nunca. Toda pessoa tem o direito fundamental e inalienável de decidir a respeito do que acontece com o seu corpo e sua vida, e o direito fundamental e inalienável de não ter o corpo usado, contra a sua vontade, como fonte de satisfação alheia. Eles são fundamentais pois integram aquele rol de direitos que, se não são reconhecidos e respeitados, tornam impossível a felicidade individual, a realização pessoal e a convivência social pacífica.

Nossa sociedade, no entanto, assumiu a postura doentia de incutir na mente de todos e todas nós que um grupo composto por mais da metade da população mundial não nasce com esses direitos. Eles devem ser conquistados e mantidos a duras penas pois, quando se é mulher, é necessário “se dar ao respeito” a fim de ser tratada com civilidade. A mulher deve provar que faz jus a ter sua integridade física respeitada. Respeito passa a ser um privilégio dado às mulheres que “merecem” e não uma obrigação de todas as pessoas que com elas convivem.

Tal “privilégio” pode ser revogado a qualquer momento, pelos mais variados motivos. No entanto, existem alguns motivos que costumam ser apresentados como verdadeiros “certificados de estuprabilidade”, sobre os quais passarei a discorrer abaixo:

O ESTUPRO NÃO É CAUSADO PELA “SENSUALIDADE” DA MULHER

Todo mundo já se deparou com ao menos uma situação em que uma mulher é acusada de ter contribuído para a violência que sofreu porque sua roupa, maquiagem ou comportamento era por demais “provocante”. Existem vários problemas com esse raciocínio.

O primeiro é que é difícil saber o que exatamente NÃO é “provocante” em uma cultura que sexualizou toda parte do corpo da mulher, desde o colo e as pernas (ninguém deveria presumir em um calor de 35 graus que a razão principal para o uso de decotes e saias curtas é atrair a atenção masculina. Sério mesmo) até os cílios (alguém aí já viu homem botando cílio postiço pra ter um ar “sensual”?) e as unhas (Dizer que as unhas de certo homem são provocantes é um comentário no mínimo esdrúxulo. Mas uma amiga minha foi proibida até os 18 anos de pintar as unhas de vermelho, pois era “cor de puta”). É complicado dizer o que NÃO é provocante em uma sociedade em que qualquer atenção demonstrada por uma mulher pode ser interpretada como um sinal de interesse sexual.

O segundo é que a mesma sociedade que ensina que ser “provocante” é ser estuprável também ensina que a meta mais alta a que uma mulher deve aspirar é ser sexualmente desejada pelo maior número de homens possível. É a sociedade que considera “feia” uma ofensa aceitável a ser usada contra uma mulher (enquanto xingar um homem de “feio” equivale basicamente a chamá-lo de bobo, chato e cara-de-melão). É a sociedade que diz que uma mulher que tem um corpo dentro dos padrões estéticos vigentes e não o mostra só pode ter algum problema psicológico (quantas vezes você já ouviu alguém, seja ao vivo, seja naqueles programas de transformação estilo “Deixe de Ser Feia!” pressionar uma mulher a não “esconder” alguma parte do corpo ou mesmo a destacar alguma coisa no rosto? Se uma mulher, por exemplo, usa roupas largas, que escondem suas curvas, muito provavelmente ela vai ouvir que isso é “falta de auto-estima” e que ela precisa “valorizar” seu corpo com outras roupas….roupas que deixem bem claro que ela tem curvas). É a sociedade cujas roupas femininas são mais justas, menores e mais transparentes que as masculinas, torrnando difícil comprar qualquer roupa que não possa ser considerada, de alguma forma, ”provocante”. É a sociedade que convenceu milhares de mulheres a usar um tipo de calçado que traz grandes riscos á saúde e atrapalha o caminhar, porque ter um andar “rebolado” que destaque as nádegas e os seios é mais importante do que conseguir caminhar sem tropeçar ou conseguir passar mais de duas horass em pé confortavelmente (esse é o tempo médio que leva para que o salto comece a causar dor).

Lição básica de lógica nº 1: não dá pra vender a idéia de que a “sensualidade” é uma forma de poder (quem nunca viu aqueles comerciais em que uma mulher passa na rua enquanto todos os homens em volta a encaram como se ela fosse um pedaço de carne, e isso faz com que ela se sinta altamente confiante?) se a gente vai unir esforços pra fazer com que, na prática, quanto mais “sensual” a mulher é, menos poder ela vai ter de decidir onde, como e com quem ela faz sexo. Não dá pra bombardear a mulher desde sempre com mensagens de que o seu valor depende de quantos homens querem dormir com ela, não dá pra dizer “Provoque!” com cada calçado, peça de roupa e reportagem em revista feminina, e depois justificar uma violência com um “Você provocou”. Não dá pra pressionar mulheres a usar roupas que destaquem suas características consideradas “sensuais”, e depois culpar essas mesmas roupas se ela for atacada.

Lição básica de lógica nº 2: o que uma mulher veste e o que ela faz são responsabilidade dela. As reações de um homem ao que uma mulher veste e ao que ela faz são responsabilidade DELE. É surreal exigir que cada ação feminina seja precedida de um “Que reações isso vai provocar em todos os homens que eu encontrar pela frente?” Nós falhamos nessa lógica todos os dias, levando a coisas como a proibição de decotes nesta escola do Texas porque “atrapalha a concentração masculina”. Segundo um dos professores do local, alguns rapazes estavam prestando atenção demais no corpo das colegas, e atenção de menos nos estudos. E é claro que, se os garotos não estão estudando porque eles estão se distraindo com outras coisas, a culpa é das mulheres pra quem eles estão olhando. Pra que ensinar esses rapazes a tomar responsabilidade pelas próprias ações, a entender que não podemos ter tudo o que desejamos (o que, diga-se de passagem, seria uma excelente lição para prevenir que eles cresçam com mentalidade de estuprador) e a não encarar mulheres como se elas fossem nada mais que um par de peitos, se a gente pode ensinar todo mundo desde cedo que os pensamentos, desejos e ações masculinas são responsabilidade da mulher?

O ESTUPRO NÃO É CAUSADO PELA VONTADE DA MULHER DE FAZER SEXO

Interessa ao machismo fazer crer que o estupro é uma modalidade de sexo, que ele existe num continuum de sexo, um continuum com várias gradações, no qual o consentimento da mulher é uma mera variável.

 Interessa ao machismo porque assim fica mais fácil transformar qualquer comportamento da mulher que indique vontade de fazer sexo/apreciação de sexo/ausência de preconceitos em relação a sexo/práticas sexuais não convencionais/trabalho na indústria do sexo em uma justificativa para o estupro. Afinal, se a mulher tem uma vida sexual bastante ativa, o estupro não é nada demais, pois ela está acostumada a sexo. Se ela gosta bastante de sexo, com certeza ser estuprada não foi tão ruim assim, afinal foi sexo, ainda que contra a vontade dela. Uma mulher sem preconceitos em relação a sexo não pode ter a “frescura” de reclamar só porque alguém a forçou a uma relação sexual (não é á toa que mulheres bissexuais – tradicionalmente enxergadas como hipersexuais e desprovidas de critérios em relação a parceiros, e cuja sexualidade é constantemente utilizada como fetiche na mídia - reportam uma taxa de violência sexual maior do que mulheres de qualquer outra orientação sexual.) Se ela sai de casa disposta a fazer sexo e sinaliza isso para as pessoas ao seu redor, onde já se viu reclamar porque “conseguiu o que estava procurando”? Se ela tem o sexo como ganha-pão e faz sexo com desconhecidos diariamente não tem o direito de escolher com quais desconhecidos vai transar (Confesso que essa eu nunca entendi. Seguindo esse “raciocínio”, uma mulher que VENDE sexo não deveria ficar ainda mais indignada quando alguém “rouba” sexo dela, á força, sem pagar?)

O problema com todas estas justificativas é que (e eu espero que você a esta altura já tenha isso firmemente fixado na cabeça) estupro não é sexo. Dizer que fazer sexo, procurar sexo ou admitir que gosta de sexo é um convite implícito para o estupro é uma ferramenta de algo sem o qual o machismo não sobrevive: o controle do corpo da mulher. É dizer ”Ok, o corpo é seu, mas existem formas aceitáveis e não aceitáveis de utilizá-lo e, se você escolher usá-lo pra fazer sexo livremente com alguém que não seja seu namorado/marido ou pra fazer sexo que fuja a certos padrões estabelecidos e se, pior, não esconder tampouco se envergonhar de ter o controle do que faz com o próprio corpo, é bom saber que esse controle pode ser tirado de você a qualquer momento.” O machismo força a mulher a escolher: ou vive a sexualidade considerada “adequada” (aquela onde ela tem ou procura um parceiro fixo, o único que terá “direito” a fazer sexo com ela) ou fica “sem dono” e vira propriedade pública. Porque, se é mulher, tem que pertencer a alguém e, se não pertencer a ninguém, pertence a todos.

Dizer que a mulher “provocou” o estupro porque saiu de casa procurando sexo é igual a dizer que alguém “provocou” o roubo porque saiu de casa disposto a gastar dinheiro (hum….não é que essas analogias com crimes contra a propriedade ás vezes funcionam?) Em primeiro lugar, como eu já falei ali em cima, nessa nossa cultura que hipersexualizou cada detalhe da mulher, não sobrou muita coisa que não possa ser enxergada como sinal de disponibilidade sexual. Em segundo, ningúem sai de casa procurando sofrer uma violência. Talvez a mulher estivesse sim procurando sexo, sexo selvagem, sexo com múltiplos parceiros e parceiras, sexo sadomasoquista, sexo com completos desconhecidos. Sexo, não estupro.

O ESTUPRO NÃO É CAUSADO PELO DESEJO INCONTROLÁVEL DO ESTUPRADOR

Um dos problemas de dizer “ela provocou” é que, mais uma vez, tira o foco do agressor e passa para a vítima. Dizer “o estupro aconteceu porque ela provocou” na verdade é dizer “o estupro aconteceu porque ele quis”. Sim, porque, ainda que o homem a princípio pense que a mulher quer sexo, ou que o estupro comece como uma relação consensual, se ele aconteceu, significa que em algum momento a mulher sinalizou que não desejava aquilo, ou que ela não tinha condições de concordar ou participar no ato (estava, por exemplo, inconsciente). Se, em algum momento, fica claro que a única pessoa que deseja que aquele ato aconteça é o homem, a responsabilidade de parar só pode ser dele. A mulher, ao mostrar que não quer prosseguir, já fez sua parte.

É nesse momento da discussão que vai entrar em cena o Mito do Incontrolável Desejo Masculino, aquele que diz que, em certas circunstâncias, é impossível para o homem deixar de satisfazer seus impulsos sexuais. O curioso é que tais circunstâncias parecem sempre ser aquelas nas quais ele corre pouco ou nenhum risco de retaliação. Se o tal desejo masculino é realmente tão irrefreável, o número de mulheres atacadas em lugares iluminados e cheios de gente, onde o agressor pode facilmente ser identificado e contido, deveria ser bem maior, não? Onde está essa desenfreada luxúria masculina diante de uma mulher “sensual”, porém acompanhada por um brutamontes?

O fato de que a grande maioria dos estupradores espera para agir em lugares isolados, ou em outras circunstãncias onde haja pouca chance de serem surpreendidos, e pesquisas como as citadas no início deste post, que demonstram que os estupradores mais bem sucedidos em escapar ilesos e cometer o crime várias vezes durante a vida são aqueles que planejam cuidadosamente seus ataques, já deveriam ser suficientes pra provar que, quase sempre, o estupro é um ato premeditado, e não um ímpeto nascido de um súbito desejo por sexo causado pela visão de pernas femininas.

Na boa? “Ela provocou” não passa de um eufemismo pra dizer que o homem estuprou porque “deu vontade”. Pouco importa o tamanho da saia da mulher, o quanto ela flertou com ele antes ou o nível das carícias que estavam rolando antes dela decidir parar. Pouco importa se ela disse com todas as letras que queria transar e depois disse que não queria mais. Não estuprar é sempre uma opção (e, se você acredita que não, que há um ponto a partir do qual todos os homens se tornam estupradores, então há de concordar comigo que a única solução lógica é SEMPRE acreditar na mulher quando ela denuncia um estupro nestas circunstâncias, e considerar o homem culpado de antemão. Pra que devido processo legal se a presunção é a de que, dada a oportunidade, todo homem é um criminoso?)

Na prática, nenhum de nós tem dúvida de que não estuprar é sempre uma opção. Se tivéssemos, as mulheres jamais ficariam sozinhas na presença de um homem. Se tivéssemos, nenhum de nós deixaríamos nossas irmãs, namoradas ou mães ficarem sozinhas com algum homem. Se tivéssemos, precisaríamos voltar á era na qual as pessoas casavam sem nunca terem ficado a sós, porque nenhuma mulher sairia com nenhum homem, nunca. Se nós continuamos tendo interações sociais nas quais mulheres ficam sozinhas e vulneráveis com estes supostos “estupradores natos” é porque sabemos perfeitamente que um homem pode escolher não estuprar. É porque confiamos que aquele homem não vai estuprar. Não dá pra agir 99% do tempo como se o estupro fosse um ato consciente e voluntário, praticado por pessoas que não respeitam regras comuns de convivência e, quando uma mulher é violentada, agir como se o estupro fosse uma parte inevitável da existência que toda pessoa dotada de pênis e testosterona vai cometer, se presentes as circunstâncias certas. Todo homem é perfeitamente capaz de escolher não estuprar. Alguns simplesmente não o fazem.

Justificar o estupro com “ela provocou” é valorizar o desejo masculino em detrimento da integridade física e psicológica feminina. É dizer que o “direito” daquele homem de satisfazer seu desejo sexual vale mais do que o direito da mulher de decidir o que acontece com seu corpo, vale mais do que seu direito a não sofrer violência, a não ser usada contra a vontade, a não ficar traumatizada, a não ser exposta a doenças sexualmente transmissíveis ou a uma gravidez traumática e indesejada. Essa presunção do “direito masculino ao sexo”, aliás, quando levada ao extremo, pode ter consequências ainda mais trágicas do que uma “licença para estuprar”. (para quem não lê inglês, o artigo fala sobre um homem de 48 anos que abriu fogo em uma academia de Los Angeles em 2009, matando 03 mulheres e ferindo outras 09. O motivo? Uma raiva crescente contra mulheres pelo que ele chamou de “uma vida de rejeição”.)

Momento para analogia-surpreendentemente-adequada-com-crime-contra-a-propriedade-número-2: o estupro é o único crime para o qual “deu vontade” é visto como justificativa legítima. Ninguém justifica um roubo dizendo que, se a vítima estava lavando o carro na rua, a visão do automóvel foi demais para o autocontrole do ladrão. Para quem compara ser estuprada ao andar sozinha por uma rua deserta e escura a ser assaltado falando ao celular em uma rua deserta e escura lembre-se que, em qulaquer dos dois casos, o criminoso poderia ter escolhido qualquer momento e local para agir, e escolheu o mais seguro pra ele. Comportamento de quem planeja um crime, e não de uma pobre pessoa vítima de seus instintos.

               O ESTUPRO NÃO É CAUSADO PELA INCONSCIÊNCIA FEMININA. O ESTUPRO NÃO É CAUSADO PORQUE A MULHER “NÃO REAGIU”

Lembra aquele papo sobre as ações de um homem serem responsabilidade DELE? Pois é, continua valendo e ele tem uma consequência surpreendente: se uma mulher está deitada inconsciente e um homem está usando o corpo dela, a responsabilidade é do homem praticando a ação, e não da mulher deitada e inconsciente. É ele que está infringindo o dever de não estuprar, e não ela que está infringindo o “dever de interromper o estupro”. Se uma mulher não pode dormir sem que isso seja visto como permissão para o estupro, existe alguma ação feminina que alguém não possa racionalizar em algum nível como um “convite”?

A raiz do problema está de novo naquele inalienável ”direito masculino ao sexo”. Um vlogger americano uma vez comentou que a única coisa que um homem pode fazer para que a sociedade considere que ele “mereceu um estupro” é estar vestido de mulher. Eu diria também que um homem gay estuprado em uma situação na qual procurava sexo vai enfrentar o mesmo machismo destinado ás mulheres que passam por isso. Mas, para um homem hetero, não há nada que ele faça que mande a mensagem “Meu corpo é propriedade pública”.

Vamos imaginar que um homem heterossexual hipotético (vamos chamá-lo de Sr. HT) não deseja fazer sexo com outros homens. Tudo o que o Sr. HT precisa fazer é não tentar fazer sexo com outros homens. Enquanto ele não estiver dizendo para um homem que quer fazer sexo, ou não estiver iniciando uma relação sexual com este homem, a presunção geral é a de que o Sr. HT não pretende fazer sexo com nenhum dos homens ao seu redor. Se um homem deseja beijar ou fazer sexo com o Sr. HT, ele pode manifestar estas intenções e, ao receber uma negativa, dar as costas e ir embora. Simples, não? Se o homem insistir em assediar o Sr. HT, se o homem beijá-lo ou tocá-lo sem permissão, ninguém vai culpar o Sr. HT por ficar compreensivelmente irritado com essa violação aos seus limites. É possível, inclusive, que muitos aplaudam a agressão física ou o homicídio contra o assediador (quantas vezes não ouvimos “Ele me assediou” como justificativa masculina para um homicídio homofóbico? Não estou falando de legítima defesa contra um estupro, e sim de uma reação absolutamente desproporcional a uma proposta de natureza sexual). Se o Sr. HT beber demais na balada e desmaiar no banheiro, todos vão ficar chocados se ele for estuprado. Se o Sr. HT apagar no sofá durante uma festa da faculdade, ninguém vai culpá-lo se ele for estuprado. Se o Sr. HT apagar em uma cama em uma casa vigiada 24 horas por câmeras enquanto participa de um programa de televisão, e outro homem o ”acariciar” durante a noite inteira sem que ninguém faça nada, a internet não vai pulular com mensagens a respeito de como ele “fez por merecer”.

Pra mulher heterossexual, as coisas não são tão simples assim. Ela pode não estar fazendo absolutamente nada que indique alguma disposição para o sexo, e mesmo assim ser considerada sexualmente disponível porque é mulher. Um homem de jeans e camiseta em uma festa de faculdade não está “sinalizando” nada além de seu desejo de participar de uma festa de faculdade. Uma mulher de jeans e camiseta em uma festa de faculdade está “sinalizando” uma disposição para ser assediada sexalmente até prova em contrário. Daí a atitude, infelizmente ainda tão comum, principalmente em festas e baladas, de homens que se sentem no “direito” de beijar uma mulher sem permissão, de passar a mão, segurar o braço, puxar o cabelo, imobilizar, cercar a mulher com amigos e pressionar por um beijo, etc. Como se, só por estar em público ou por estar em um ambiente onde geralmente se paquera, ela tenha aberto mão do direito de escolher quem pode encostar no seu corpo, como e quando. Como se a mulher estivesse em um estado constante de “permissão”, como se o homem tivesse a prerrogativa de iniciar um avanço sexual, e a mulher tivesse o dever de freá-lo. E, como ela está em estado constante de “permissão”, ela não precisa sequer estar acordada.

Momento para analogia-surpreendentemente-adequada-com-crime-contra-o-patrimônio-nº 3: da próxima vez que você tiver sede na balada, pegue o drinque da pessoa mais próxima. Se ela reclamar, diga que ela não precisa ficar histérica, todo mundo tá ali pra beber, se ela não quer que bebam com ela devia ter ficado em casa, e se ela está com um copo de bebida na mão, não pode reclamar se alguém tiver sede e quiser aproveitar. Fez sentido? Pois é. Tem algo de seriamente errado quando se espera mais respeito pelo drinque de uma mulher do que pelo corpo dela.

O ESTUPRO NÃO É CAUSADO PORQUE A MULHER “NÃO SE PREVENIU”

Se você for mulher, talvez a esta altura esteja pensando: “Já que o mundo parece pensar que eu estou em constante estado de permissão e muitos gestos do meu dia-a-dia podem ser interpretados como um convite para o estupro, eu deveria começar a fazer o possível para não enviar estes sinais.” Faz sentido, não? Afinal, se o mundo diz que há uma série de situações nas quais você não deveria demonstrar indignação, ou mesmo surpresa, ao ser estuprada, ele só pode estar esperando que você aja como se todo desconhecido fosse um estuprador em potencial e toda ação sua possa ser interpretada como uma “disposição para ser estuprada”.

Pois faça o teste: da próxima vez que sair com seus amigos, avise que não vai beber porque não quer correr o risco de “apagar” e ser estuprada. Da próxima vez que aquele seu colega do trabalho ou da academia oferecer carona, diga ”Não, obrigado, não conheço você muito bem e pode ser que essa carona resulte em violência sexual da sua parte.” Da próxima vez que a sua amiga mostrar aquele sapato de salto, aquele vestido decotado ou aquele batom vermelhíssimo na vitrine, declare com a cara mais séria do mundo ”Acho que isso transmitiria a idéia de que eu estou sexualmente disponível pra qualquer homem que me desejar, e eu não quero ser responsável por causar um estupro, então vou comprar algo mais discreto”. Quando estiver saindo com um homem, se recuse a acompanhá-lo até sua casa, viajar junto ou ficar sozinha no mesmo carro. Aja como se o estupro fosse a parte inevitável da existência que os defensores de estuprador parecem pensar que é. Quem sair dessa com a vida social intacta e sem uma reputação de “paranóica odiadora de homens” precisa ser estudada pela ciência, pois vive em um meio social completamente diferente de qualquer coisa com a qual estamos acostumados.

O que acontece aqui é a mesma postura esquizofrênica que acontece com a “sensualidade”: toda mulher é bombardeada desde sempre com a idéia de que negar atenção a um homem é uma das maiores grosserias que ela pode cometer. A mulher que não reage a uma cantada, a um flerte ou mesmo a uma tentativa de um completo desconhecido de entabular uma conversa é “orgulhosa”, “frígida” e “não sabe se divertir”. A mulher que deixa claro que o comportamento do patrão, do colega ou do professor a deixa desconfortável leva tudo muito a sério, é um fruto da “ditadura do politicamente correto” e mostra que “hoje em dia não se pode mais brincar”. A mulher que ousa cogitar a idéia de que um homem possa ser um possível risco a sua segurança é paranóica, preconceituosa e insensível.

Duvida? Há algum tempo atrás, a escritora Phaedra Starling escreveu um excelente post intitulado Schrodinger’s Rapist . Nele, ela explicava algumas coisas altamente coerentes que, sinceramente, deveriam ser óbvias para qualquer homem mas, infelizmente, não são. A mensagem principal do texto era “Quando um homem se aproxima de mim, eu me pergunto: Este homem vai me estuprar? Uma mulher desconhecida vai olhar pra você com desconfiança se você tentar uma aproximação, afinal você é um estranho e ela, enquanto mulher, está sempre ciente da possibilidade de sofrer violência nas mãos de um homem. Principalmente, se você deixar claro que não respeita os desejos e os limites dela, se você continua falando quando ela já disse que não está interessada, se você continua ligando e mandando e-mails quando ela disse que não tem interesse em você, então essa mulher tem todas as razões no mundo pra se afastar, pois você já provou que ignora o que ela tem a dizer quando quer alguma coisa dela, e que acha que o seu direito de interagir suplanta o direito dela de não interagir com você.” Parece simples, não?

Aparentemente não, pois as reações foram tão fortes que foi necessário outro post para explicar o óbvio: ela não estava dizendo que todo homem é um estuprador. O que ela estava dizendo era que ela se reservava o direito de não correr o risco de descobrir se um homem era um estuprador, principalmente quando ele já havia dado sinais claros de que não respeitava os limites e os desejos dela. Alguém que ler só os comentários ao texto pode supor que ela clamou pela castração imediata de todos os homens do planeta. Como ela ousava temer mais a homens do que a mulheres?! (Realmente é um enigma que alguém tome cuidado com pessoas que tem pênis ao evitar um crime que costuma ser cometido com o pênis). Isso era preconceito, igualzinho ao mudar de calçada ao ver uma pessoa negra! Ela devia “crescer” e parar de agir como “um bebê”! Violência não enxerga gênero! (Pergunte a um homem qual é a maior preocupação dele ao andar por uma rua deserta á noite. Agora faça a mesma pergunta a uma mulher. Pois é.)

Reação semelhante foi a que se seguiu a um comentário da blogueira cética Rebecca Watson que, em um vídeo sobre o machismo presente no meio ateísta e cético, comentou a respeito de um rapaz que, após ouvi-la falar durante horas sobre o quanto ela estava cansada de ser abordada sexualmente em encontros céticos, a seguiu até o elevador às 4 da manhã e perguntou se ela não gostaria de subir ao quarto dele para “tomar um café“. Rebecca então fez um pedido muito simples: “Caras, não façam isso. Sério, não façam esse tipo de coisa.” O tempo que ela passa falando sobre o incidente é de cerca de um minuto em um vídeo com oito minutos de duração. Pois ninguém menos que Richard Dawkins tomou sobre si a tarefa de mandar Rebecca parar de choramingar porque ela ousou, OUSOU, sugerir que seguir uma mulher até um espaço fechado de madrugada e a chamar pra visitar o seu quarto pode assustar a mulher em questão.

Voltando ao BBB: lembra que a participante Mayara já havia declarado ter sido bolinada, contra a vontade, por Daniel? A reação dos outros participantes? Sugeriram que ela “não desse importância ao assunto”. É de se imaginar que, caso tivesse sido ela a participante estuprada, provavelmente a essa altura o comentário geral seria de que ela “devia ter feito alguma coisa” quando ele a bolinou e que, se ela sabia que ele era perigoso, deveria ter evitado beber para “não se colocar em risco”.

Tem também a história da Danielle, que foi agressivamente bolinada em uma boate de Belo Horizonte e teve o caso ignorado e ridicularizado pelos seguranças da casa.

 Tem a Rhanna, que teve o braço quebrado quando se recusou a beijar um rapaz em uma balada. A culpa, claro, foi dela, pq “balada não é lugar de moça de família” e “se ela o tivesse beijado nada disso teria acontecido.” No mesmo post sobre a Rhanna, tem a Wanessa, que foi parada em uma blitz por ter bebido, teve a carteira de motorista apreendida e, logo depois, recebeu uma mensagem do agente da CET que, após pegar seu telefone sem permissão, enviou torpedo pedindo o ”MSN, Facebook, Orkut” da moça. Ela denunciou o abuso de autoridade e ele foi demitido. Nos comentários á notícia, muitos apontando a óbvia homossexualidade da garota (uma mulher que não reage a uma cantada tão respeitosa e escrita em português tão perfeito só pode não gostar de homem. Não tem outra explicação!), a culpando por ter demitido o “pobre trabalhador”, além do sucinto “Essa merece um estupro.”

Naquele post tem ainda o caso de uma mulher que foi a uma festa com colegas de trabalho, bebeu, desfaleceu, foi estuprada por oito (sim, OITO! deles), e ficou sabendo do ocorrido porque os monstros filmaram o estupro e mostraram para as demais pessoas no trabalho (haja tolerância social com a violência contra a mulher pra ninguém ter sequer pensado que sair divulgando o estupro por aí podia acabar mal pra eles hein!)  Nos comentários, um homem declara solenemente que o problema é que hoje em dia há mulheres “sem vergonha” que “saem pra encher o caneco com um bando de macho” e depois “se passam por inocentes” quando algo assim acontece (eu achava que o problema era que existem homens que se reúnem pra estuprar uma mulher e filmar o crime, e pessoas que não fazem nada pra impedir, como um colega presente que não participou da violência, mas também não fez nada pra impedir que ele ocorresse). Vamo combinar uma coisa? Se a gente vai culpar uma mulher por não presumir que, em um grupo de nove pessoas, oito são estupradores e uma é um boçal que não vai levantar um dedo pra impedir que um estupro ocorra, então vamos ser coerentes e não ficar “mordidinhos” quando uma mulher age como se todos os homens ao redor fossem estuprá-la, beleza?

Adivinha: é impossível culpar uma mulher por “não reagir” quando, se ela reage ela apanha, sob aplausos gerais e coros de “frígida” e “histérica”! É impossível culpar uma mulher por “não ter feito nada” pra prevenir ou interromper um estupro quando ela passou a vida inteira ouvindo que TODAS as outras violações da sua vontade e do seu corpo são normais e esperadas e “nada demais”. É impossível culpar uma mulher por “não se prevenir” quando qualquer manifestação de receio da parte dela é ridicularizada como paranóia e tomada como ofensa pessoal pelos homens ao seu redor.

Então fica assim: reagir de forma favorável a um avanço sexual é um convite pra ser estuprada. Rejeitar um avanço sexual é um convite pra ser agredida fisicamente (e, segundo alguns, estuprada também, por frustrar a vontade do coitadinho do homem que queria transar).  Ser bonita é um convite pra ser estuprada, e ser feia é um motivo pra abraçar o estuprador. Aventar a possibilidade de que qualquer homem possa te estuprar é uma ofensa a todos os homens sobre a face da Terra e uma atitude de mulher histérica, mas se você for estuprada não pode reclamar porque é óbvio que aquela situação só podia terminar em estupro, e você devia saber disso, sua burra.

Taí. Encontrei a analogia ideal. Ser mulher não é ter que cuidar bem da carteira pra ninguém levar ela embora. É viver com todos ao redor achando que ter carteira é motivo suficiente pra justificar o roubo.  

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O Ricardão saiu de detrás da cortina e é illuminati. E agora?


Ceticismo.net 25 Jan 2012, 8:18 pm CET

O problema no insano mundo das conspirações é que quanto mais você pensa que um maluco não pode falar mais besteira do que o monte de sanduíches, digo, sandices já proferida, outro chega e diz "Bitch, please" e solta mais um verborrágico texto mais louco ainda. Me disseram que a culpa era da tenra idade e a vontade de querer aprender. Óbvio que eu acredito tanto nisso como acredito nas calcinhas santas da Virgem Maria (não duvido que uma hora apareçam com esta "relíquia"). Portanto, o que resta? Resta mais um maluco com mania de conspiração e pronto para dar mostras de como vai indo a Educação Brasileira, ladeira abaixo.

Acompanhem com a trilha sonora.

Engraçado, não sabia que a palavra cético significava tanta sabedoria, tanta segurança. Todos extremamente bem informados, à par das últimas invenções tecnológicas e segredos de Estado. Realmente caro autor do texto, falar de ET é uma besteirada. Muito antes de Cristo, ali pela Pérsia e Babilônia, era comum pendurar anéis nas orelhas e colocar nos dedos, em homenagem ao deus Saturno (Sabbath). Como eles sabiam que tal planeta tinha anéis, se só Galileu foi o primeiro a comentar, lá em idos de 1600 e pouco? Se falamos as “Horas” hoje, é porque relacionamos à Hórus, cujo nome vem da Constelação de Órion.

Bom, então como diremos? BEM FEITO, IDIOTAS! Continuem acreditando que a culpa é minha por não querer explicar às pessoas. O que temos? Um festival de burrice, desinformação, ignorância e total mania de ver algo com "conhecimento" inventado.

Primeiro de tudo, Gaileu viu os anéis de Saturno (que ele chamou de "orelhas". O que isso significa? Nada. As mulheres na Pérsia e Babilônia (e Grécia e Fenícia e Egito etc etc e muitos etc) usavam brincos e anéis nos dedos. Alguém é tão "esperto" que percebeu que um formato de anel entra no dedo, já que muitos dedos entram em anéis (interpretação ao seu critério). Colocar um cilindro num buraco redondo! Só com a ajuda do ET Bilu mesmo! O fato de ter brincos em formato de pedras é prova do que? Ora, que o pessoal sabia que cometas são feitos de poeira, metano, CO2 e água. É claro!

O jênio me diz que Saturno era chamado de Sabbath.  Por quê? Provavelmente, porque eles sabiam que o Ozzy Osborne iria nascer um dia.  E horas! Ora, ora a hora! Ela advém do nome Hórus. Então hoje, quarta-feira, é prova que Odin é um Deus que veio nos visitar (quarta-feira –> wednesday –> Woden –> Odin). Mais curiosamente, "hora" em alemão escreve-se "stunde". Há uma conspiração germânica para desviar a atenção. Só pode! Ou então é para adorarmos o deus Estante! Mais curiosamente ainda é que, a despeito do que os Stargates da vida dizem, ninguém sabe como era a pronúncia do idioma egípcio na época dos Faraós. Sem falar que o alfabeto latino ainda nem fora inventado.

Então, é proibido pensar?

Claro que não! Quando você quiser começar, sinta-se à vontade!

É proibido perguntar? Devemos confiar na classe política que nos governa como bovinos, que nos rouba, que trata o Estado como deles? O que te faz pensar que eles estão preocupados contigo e tua família?

Alguém explica a esta mula que eu nunca falei nada disso? Mas ELE é que parece pensar que sim, estão preocupados. Se não estivessem, não estariam bolando milhões de planos para desviar a tenção de… bem, de alguma coisa que nunca dizem o que é.

Então eu devo digerir a versão oficial que diz que o Bin Laden caiu no mar… pensa meu amigo. São pequenas mentiras que se somam, principalmente porque pessoas como você, ajudam a espalhar a ideia de que pessoas que tem algum espírito investigativo e iniciativa de pesquisa para assuntos idiotizadas pela mídia são “conspiracionistas”.

Mas é simples. Você posta uma prova e eu a levo em consideração. Tem alguma? Não, eles nunca têm!

Esqueça o William Bonner. Pergunte à qualquer controlador de vôo, piloto ou militar de alta patente da FAB se eles sabem de alguma coisa.

Sobre o Bin Laden?

Pergunte aos 3 astronautas que foram primeiro à Lua se eles sabem de algo. Pergunte à Gordon Cooper, que foi à ONU falar sobre o acobertamento, se ele sabe de algo.

Alguém pode me dizer DO QUE ele está falando? Aliás, os 3 astronautas que foram à Lua? Mas o governo americano não tinha inventado isso também?

Pergunte ao ex-ministro da Defesa canadense Paul Hellyer. Pergunte à Stanton Friedman que foi ao Fórum Global de Competitividade 2011 na Arábia Saudita falar de energia e disco voadores, junto com mega-empresários de Audi, Microsoft e outros. Babaquice né, um monte de CEO falando sobre ET´s…. Que nada, o bem informado aqui é você.

Energia de discos voadores. Ok. Eu ia até falar algo, mas os artigos do Ceticismo Aberto sobre OVNI são melhores. Recomendaria este artigo, mas a necessidade de se crer em besteiras não o fará levar o Kentaro Mori mais a sério. Assim fica difícil.

Enquanto escrevo aqui, a tecnologia militar e secreta está a 30/50 anos à frente da civil, e se os laboratórios estão misturando DNA de gente com bicho e plantas há 6 anos atrás, meu amigo, sabe se lá o que estão fazendo que não sabemos.

Sim, e daí? Também misturam genes de humanos nos porcos para que eles produzam insulina. Isso significa uma legião de porquinhos atacando lobos sopradores?

Alguem já viu Kennedy falando das sociedades secretas?

Além do Zeitgeist? Não. Isso significa que Abraham Lincoln e William McKinley eram contra os Illuminatis? Provavelmente. Meu DEEEEEEEUS! O arquiduque Francisco Ferdinando sabia que os Illuminatis estavam preparando a 1ª Guerra Mundial. Ele denunciou-os e acabou sendo assassinado!

Parece besteira? Nonsense? É a ponta do iceberg. Daonde vêm os Arianos que Hitler tanto falava?

http://pt.wikipedia.org/wiki/Arianos

Daonde vem o símbolo da SS?

http://www.sacred-texts.com/pag/runes.txt

Então o mundo não faz sentido? Você acha que os acionistas da GM, que são os mesmos do JPMorgan, da Monsanto, da Lockheed e de outras multinacionais, pensam assim?

Difícil escrever para analfabetos funcionais…

POIS O MUNDO FAZ TODO O SENTIDO PARA ELES!

Que bom!

Eles ganham com a guerra, com a doença, com carro, com tudo!

Os donos dos supermercados ganham dinheiro com pessoas tendo poder aquisitivo pra se alimentarem. Vendendo comida, acabam com a fome. Alguém pensou nisso?

Você acha que o Dólar não tem lastro hoje porque o mundo não faz sentido!?!?!?

Claro! Ninguém investe em dólar.

Você acha que o Kadafi, que defendia o Banco Africano e se opunha ao FMI foi tirado de jogo porque o simplesmente o mundo não faz sentido!?!?!?

Kadaffi, o bonzinho.

Que tipo de argumento é esse!?!? Você acha que o triângulo maçônico da bandeira das Minas Gerais, da Bahia, da Nicarágua e de tantos outros símbolos está ali porque o mundo não faz sentido!?!?!

Pitágoras, Euclides e Arquimedes eram maçons.

Meu amigo, se você entende um pouco das coisas, vai saber que somos feitos de átmos, portanto 99% de espaço com um núcleo pequeno. Portanto estamos ligados à tudo pelo vácuo.

Vácuo é o que não falta na cabeça dessa criatura.

Nós, a Terra, a Via Láctea. Estamos irremediavelmente conectados com as estrelas, pois pelos corredores da NASA, todos sabem que a vida aqui no planeta veio de fora.

Sim, e a vida apareceu — PLIM! — do nada, em outro planeta.

O parco entendimento de Darwin sobre célula no começo do século XXI é o mesmo que comparar um avião de papel à um B-2. Você acha que sabe de tudo o que acontece no acelerador de partículas do CERN? Nem vai saber! Ciência, Tecnologia e Religião estão comprados, nas mãos de grupos privados.

Garçom? Uma cerveja pra mim e uma dose de haldol pro meu amigo.

Tanto a Bíblia que você lê (King James) quanto à ciência que você pratica (ocidental no caso), vieram das mesmas mãos, pois Francis Bacon, o pai da Ciência, também trabavalhava para o rei James. Ou seja, nós temos razão e religião dizendo no que você pode acreditar, todos manipulados pelas mesmas pessoas. Meu amigo, no fim das contas, a única coisa aqui que não faz sentido é o teu texto.

Eu sabia! SABIA! Que aquele lance de Ciência era pura manipulação. Por isso que eu fico cheirando vinagre para prevenir doenças e arreio despachos na encruzilhada. Não acreditem na ciência. Ela pode fazer com que você se desvie dos caminhos da religião. A religião o desviará da ciência e todas as duas não existem, é tudo coisa de ET enfiando sondas na sua bunda que nem no South Park. Quanto a mim? Eu nego o conhecimento.


* Vocês devem pensar que eu inventei isso, né? Eu pensaria. Vejam o screenshot.

Religiosidade no Neolítico – Parte 2


Bule Voador 25 Jan 2012, 1:00 pm CET

Autor: Leonardo Veloso Pin Editor: Guilherme Balan

[confira também: Religiosidade no Neolítico - Parte 1]

Durante a constituição do modelo de cidade-Estado, que dominará o Mediterrâneo pelos próximos séculos [4000-3500 a.C em diante], veremos nascer criações fundamentais do ser humano. Apesar de constatar-se a domesticação de plantas selvagens do próprio local em regiões afastadas do Levante, as áreas ao redor do Crescente Fértil necessitavam do que era inicialmente produzido nessa área geográfica. A disseminação das culturas do sudoeste asiático “foi logo seguida pela de outras inovações que nasciam no Crescente Fértil ou perto dele, entre elas a roda, a escrita, técnicas de metalurgia, ordenha, árvores frutíferas e produção de vinho e cerveja.”1

Nas cidades-Estado hieráticas, o mundo sagrado das divindades era muito mais do que um ideal a se aspirar, mas, antes disso, um protótipo, um arquétipo da vida na terra. Os próprios deuses haviam ensinado as técnicas de construção das cidades aos homens e, por conta disso, concebia-se que tudo no mundo era uma réplica frágil de alguma contraparte divina, ou seja, as pessoas e objetos da realidade sagrada tinham suas imitações no mundo material2. Foi por volta do terceiro milênio AEC que surgiu “o profissional em tempo integral, iniciado e estritamente arregimentado, sacerdote de templo.”3

Mapa da região da Mesopotâmia (fonte: Wikipedia)As cidades de Ur, de onde veio o Patriarca Abraão, Kish, Erech, Nipur, Shuruppak, Sipar e Lagash foram os palcos privilegiados dessa nova forma de se enxergar a realidade. Do alto das maravilhosas torres-templos chamadas zigurates os sacerdotes podiam admirar o cortejo das sete esferas eternas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, a Lua e o poderoso Sol, os mensageiros da lei e ordem universais. O número sete torna-se objeto de especial reverência por conta das sete “estrelas” errantes das quais derivou a semana4. Toda a cidade é uma cópia na terra da ordem do Cosmos e, de acordo com a concepção matemática de inspiração astronômica que dava suporte a essa consonância mágica, o universo (macrocosmos) unia-se à comunidade (mesocosmos) e esta, por sua vez, ligava-se ao ser individual (microcosmos)5.

“Pois há uma lei, um rei, um Estado e um universo. E além dos muros de nossa pequena cidade-estado estão as trevas; mas dentro dela reina a ordem, planejada de toda a eternidade para o homem, suportada pelo pivô do rei, que em sua imitação sagrada da lua (…) é a lua terrena (…). Sua rainha é o sol. A sacerdotisa virgem que o acompanhará na morte e será a noiva em sua ressurreição é o planeta Vênus. E seus quatro primeiros ministros de Estado – os senhores das finanças e da guerra, o primeiro-ministro e o carrasco – encarnam os poderes, respectivamente, dos planetas Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno.”6

Quando o rei ou a rainha morriam, eram acompanhados à sepultura por todos os membros que refletiam a ordem celeste. Nesse mundo arcaico o verdadeiro caráter dos seres não estava em sua personalidade individual, mas em sua representação arquetípica. O rei é o bom pastor e seus súditos seu rebanho; ou é o agricultor dos deuses (como Adão em Gênesis 2:15) que dá vida aos campos; também pode ser o mestre das artes, o portador da cultura (que nas mitologias é o aquele que traz o fogo, símbolo da sabedoria, à comunidade) que constrói a cidade7.

A serpente Ouroboros em um antigo manuscrito alquímico grego (fonte: Wikipedia)Pode-se estranhar um rei lua ao invés de uma rainha, mas nesse perído (anterior à invasão acádia de 2500 a.C) na esfera do sagrado A era B, o masculino era feminino e a morte era indissociável da vida. A divindade Lua, ao contrário do Sol que era sempre o mesmo, exemplificava a lei universal do devir com seu crescimento, decrescimento, desaparecimento e renascimento. Ela era aquela que se situava para além dos pares de opostos da existência sensível, relembrando o mundo do mito antes do primeiro assassinato ou da primeira relação sexual. A serpente, o símbolo lunar junto do chifre do touro, mordendo a cauda na forma de Ouroboros, simbolizava o eterno retorno e os pares de opostos unidos, pois sua boca era como uma vagina recebendo o órgão sexual masculino. A sociedade da cidade-Estado hierática era matrifocal8, mas o entendimento da importância do homem na procriação durante a época de sedentarização e domesticação de animais tornou-se mais evidente por meio da observação do desenvolvimento dos rebanhos.

“Em consequência desta situação encontramos a Deusa-Mãe acompanhada de um ser masculino, um filho ou um irmão que a acompanha nos ritos da fertilidade e com os quais se une. Nos mitos e ritos trata-se de um deus jovem que há de morrer para logo renascer. No entanto, é a Grande Deusa quem cria a vida e governa a morte, mas agora reconhece-se muito melhor a participação masculina na procriação. As núpcias sagradas (hierogamias) e outros ritos similares festejados durante o quarto e terceiro milênios expressavam estas crenças. Até que a deusa se tivesse unido ao jovem deus e houvesse tido lugar a morte e o renascimento deste, não podia recomeçar o ciclo anual das estações. A sexualidade da Deusa é sagrada.”9

O consorte, filho de parto virginal ou irmão da Deusa era o “Filho Legítimo do Abismo”, ou “O Filho do Abismo que se Levanta”10 ; aquele que representa a energia geradora que se autoconsome; o deus-touro com o chifre em forma de lua o qual entra no mundo subterrâneo e é resgatado por sua esposa, a deusa nua em forma de serpente que copula com a serpente monstro e renova as forças do mundo11, após três dias de trevas. É Baal e Anat, “Ístar e Tammuz, Vênus e Adônis, Ísis e Osíris, Maria e Jesus.”12

Uma versão da estrela símbolo de Ianna/Ishtar (fonte: Wikipedia)Esse deus da colheita é em muitos casos o deus da morte. Ao morrer e retornar à vida, personifica o processo universal no qual vida e morte estão inexoravelmente ligadas. O culto do deus morto é simbolizado pela carnificina porque a vida nunca vence completamente. O antigo mito sumério de Inanna, sua parte ctônica Ereshkigala e Dumuzi13 deixa essa questão bem clara. Inanna desce ao submundo para usurpar a irmã Ereshkigala, rainha das profundezas e da vida. Fracassa, e os Sete Juízes subterrâneos (contrapartes ctônicas das sete esferas celestes) a condenam à morte. Volta à terra acompanhada de demônios que forçam Dumuzi a ocupar o lugar de Inanna por este ter traído a esposa. Doravante, passa seis meses com Ereshkigala, nos quais a terra sofre a estiagem, e seis com Inanna, quando os grãos brotam e a colheita acontece.

A agricultura não era uma atividade pacífica e sim uma batalha constante contra as intempéries, esterilidade, fome e seca. A mitologia neolítica é violenta e as forças sacras da morte precisavam ser vencidas para que o alimento pudesse ser produzido. A semente penetra a terra e morre para dar origem à vegetação, os “implementos agrícolas mais parecem armas, o cereal deve ser reduzido a pó, as uvas, amassadas até a extração de sua polpa antes de se tornarem vinho”14

A grande mãe não era generosa e gentil; ao contrário, suas raízes remontam à Grande Deusa, senhora dos animais e fonte da vida; a que dá à luz constantemente por meio da morte do marido Animal. Nascida do ressentimento inconsciente da mulher em decorrência dos perigos pelos quais o caçador precisava passar, exigia grande derramamento de sangue para sua manutenção. A mulher, apesar de assegurar a sobrevivência da tribo por ser a fonte de nova vida, precisava do “interminável sacrifício de homens e animais”15 para sua alimentação e a das suas crianças. Sua evolução, a Deusa Mãe, também precisava da morte do consorte o qual, como os alimentos de origem agrária, era esquartejado e mutilado antes de ressuscitar com a colheita.

“O imaginário sexual do plantio não significa que os povos percebiam a agricultura como um caso amoroso romântico com a natureza. A própria reprodução humana era extremamente perigosa para mãe e filho. Do mesmo modo, lavrar os campos exigia trabalho árduo, estafante. No Gênese, (…), a perda da condição paradisíaca inicial é vivida como prática da agricultura. No Éden os primeiros seres humanos cuidavam do jardim divino sem fazer esforço algum. Após a Queda, a mulher passa a parir os filhos entre dores, e o homem a tirar o sustento da terra com o suor de sua fronte. (Gênese 3:16-19)”16

No mundo antigo, a deusa era representada por um monte de terra o qual era o omphalos, o umbigo e ponto de início do mundo. Esse axis mundi era o centro dos quatro cantos do mundo, como a árvore da vida e os quatro rios da Gênesis (Gênesis 2:9-14), no qual a realidade divina e humana se encontravam.

“(…) é o centro do círculo simbólico do universo, o Ponto Imóvel da lenda do Buda, em torno do qual, pode-se dizer, o mundo gira. Sob esse ponto, encontra-se a cabeça — suporte da terra — da serpente cósmica, o dragão, que simboliza as águas do abismo — a energia e a substância divinas,criadoras de vida, do demiurgo, o aspecto gerador do mundo do ser imortal. A árvore da vida, isto é, o próprio universo, cresce nesse ponto. Está enraizada na escuridão e sustentada por ela; o pássaro dourado do sol está empoleirado em sua copa; uma fonte, poço inexaurível, borbulha a seus pés.”17

Notas:

1 - DIAMOND, Jared. Armas,germes e aço. Os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 183 2 - ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. São Paulo: Editora Schwarcz, 2008. p.18 3 - CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 126 4 - BOYER, Carl B. História da Matemática. . São Paulo: Blucher, 2001. p. 36 5 - CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 327 6 - idem, ibidem. p. 327 7 - idem, ibidem. p.331-334 8 - Apesar das crítica feitas à ideia de “matriarcado primitivo” de Johann Jakob Bachofen, não entraremos aqui no mérito da pertinência ou não do termo e das críticas ao mesmo. Todavia, os conceitos de sociedade “matrifocal” ou “matricêntrica” referindo-se a comunidades centralizadas na figura da mulher será utilizado juntamente ao termo “matriarcado”. 9 - MOREIRA, Ana Maria Mendes. A mulher, o divino e a criação. Colóquio internacional “A Criação”. Convento dos Dominicanos. Lisboa, 2001. Versão online http://triplov.com/creatio/moreira.htm 10- CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 333 11- idem, ibidem. p. 337 12- CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. Pgs. 123-124. São Paulo: Palas Athena, 2005. 13- BARBAS, Helena. (tradução). Descida de Inanna aos Infernos in: A saga de Inanna (antologia de poemas).http://www.helenabarbas.net/traducoes/2004_Inanna_H_Barbas.pdf 14- ARMSTRONG, Karen. Breve História do Mito. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 45 15- idem, ibidem. p. 38 16- idem, ibidem. P. 44-45 17- CAMPBELL, Joseph. O Heroi de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 22

idem, ibidem. P. 44-45 CAMPBELL, Joseph. O Heroi de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 22

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O Poder da Gentileza


Bule Voador 24 Jan 2012, 1:00 pm CET

Fonte: SocialMente Autor: André Rabelo

 

Obra de Keith Haring, 1987

Nas grandes cidades, vivemos nossas vidas em meio a uma multidão de desconhecidos. Cruzamos todos os dias com estranhos que não conhecíamos e que, provavelmente, não vamos conhecer também. Nessa atmosfera, não é de se surpreender que a apatia pelo sofrimento alheio e a distribuição de grosserias tenham se tornado tão comuns e aceitáveis. Podemos até nos surpreender se um completo estranho   emergir a partir da multidão nos oferecendo um ato de gentileza, sem pedir nada em troca.

Você não se surpreenderia se, ao chegar no caixa de um restaurante para pagar a sua conta, fosse informado de que uma pessoa gentilmente pagou a sua conta e não quis se identificar? Uma situação como esta pode parecer muito improvável, mas foi exatamente o que aconteceu em um restaurante na Filadélfia, em 2009, nos Estados Unidos [1]. O ato de gentileza inspirou, nas 5 horas seguintes, várias pessoas naquele restaurante a pagar a conta de outras mesas sem se importar com o valor da conta e de maneira anônima. Os trabalhadores do restaurante ficaram emocionados, pois nunca tinham visto algo tão solidário como aquilo acontecer. Como diz na reportagem da NBC10 Philadelphia: ”É uma história de feriado verdadeira que prova como um pequeno gesto de gentileza pode criar um pouco de magia.”

A gentileza é um tipo de ação espontânea e, muitas vezes, sutil, onde uma pessoa beneficia outra, seguindo normas implícitas de conduta. É um tipo de comportamento de baixo custo para quem o realiza, mas que pode beneficiar muito quem recebe. O vídeo abaixo demonstra vários exemplos de como a gentileza pode se manifestar no cotidiano.

Clique aqui para assistir o vídeo inserido.

Este vídeo é uma bela ilustração do que a gentileza é capaz de produzir no cotidiano das pessoas. Ela é contagiante. O vídeo (que encontrei no Treta) é uma produção do projeto Life Vest Inside (“Salva-Vidas Interno”), que busca promover a gentileza como uma maneira simples, mas poderosa e ativa, de melhorar o mundo. Uma parte da descrição do projeto merece ser traduzida aqui:

O trabalho de caridade e o serviço comunitário são ferramentas inestimáveis para melhorar o nosso mundo, mas a gentileza é mais do que boas ações ou voluntariado apenas. Gentileza é empatia, compaixão e conexão humana; é um sorriso, um toque ou uma palavra confortante. Mesmo o menor gesto pode clarear um dia escuro ou aliviar um fardo pesado.

O tema tem se tornado cada vez mais presente em campanhas empresariais como exemplifica o Movimento Trânsito + Gentil. Este projeto busca promover a gentileza entre motoristas no contexto do trânsito. Qualquer um que dirija em uma grande metrópole sabe reconhecer o valor de campanhas desta natureza, considerando a grosseria e falta de solidariedade que se pode observar facilmente no trânsito das grandes cidades. Como os idealizadores do projeto colocam de maneira simples: “E se você ouvisse uma música, em vez de buzinar? Ou apontasse o erro, em vez de xingar? Gentileza gera gentileza e se multiplica. Experimente.” Seguem abaixo dois vídeos curtos da campanha, onde um taxista fala sobre a importância que ele vê na gentileza:

Clique aqui para assistir o vídeo inserido.

Clique aqui para assistir o vídeo inserido.

Outras iniciativas também promovem a gentileza como um instrumento de mudança social, como a Random Acts of Kindness Foundation e o Help Others.org. Toda esta atenção dirigida para a gentileza tem um motivo – ela pode ser um meio extremamente simples, mas poderoso, de melhorar a vida das pessoas e o convívio social.

ResearchBlogging.orgO poder da gentileza não está apenas no benefício concreto que a pessoa ajudada recebe, mas a própria pessoa que ajuda também pode se beneficiar. Ser gentil pode tornar as pessoas mais felizes, até mesmo a longo prazo. Isto é o que alguns estudos indicam [2, 3, 4, 5]. Ser gentil com outras pessoas pode aumentar momentaneamente a felicidade de alguém que, por sua vez, aumenta a probabilidade dela agir gentilmente em situações subsequentes [2, 3]. Alguns pesquisadores como a professora Sonja Lyubomirsky, da Universidade de Stanford, propõem que a retroalimentação positiva existente entre a felicidade e a gentileza pode funcionar como um mecanismo para a sustentabilidade da felicidade a longo prazo.

Um artigo publicado na revista Science relatou evidências correlacionais, longitudinais e experimentais de que há um aumento maior na nossa felicidade quando gastamos nosso dinheiro com outras pessoas [3]. O dado mais interessante e contra-intuitivo é que, independente da quantia de dinheiro gasta, maiores gastos com outras pessoas se relacionaram com maior felicidade, mas maiores gastos consigo mesmo, não. Isto pode soar estranho, já que poderíamos esperar, intuitivamente, que quanto mais gastamos conosco, mais felizes deveríamos nos sentir. Entretanto, estes estudos indicam que utilizar dinheiro para beneficiar outras pessoas pode nos tornar mais felizes do que se os usarmos para nós mesmos, independente de quanto seja.

Adicionalmente, outros dados indicam que pessoas mais felizes também são mais propensas a agir gentilmente [5, 6, 7]. Em outro estudo que replicou a relação entre felicidade e gentileza, uma simples intervenção onde era pedido aos participantes que, ao longo de uma semana, ficassem atentos e contassem quantos atos de gentileza realizaram, resultou em um aumento na felicidade subjetiva dos participantes [5]. Todos estes estudos indicam que a gentileza tem o poder de nos tornar mais felizes, tanto momentaneamente quanto a longo prazo, se a praticarmos com as outras pessoas.

O vídeo abaixo da Random Acts of Kindness Foundation mostra uma admirável ação de duas crianças que aprenderam desde cedo com uma professora sobre como é bom ser gentil. Se você gostaria de praticar mais a gentileza, mas não sabe por onde começar, boas dicas podem ser encontradas nessa página do Help Others.org.

E nunca se esqueça do poder da gentileza – ela é contagiante, beneficia quem a recebe e, de brinde, ainda pode tornar mais feliz quem a pratica!

Clique aqui para assistir o vídeo inserido.

 

Referências

[1] Johnson, D. (2009). Mystery couple starts “magical” chain reaction. Recuperado em 4 de Janeiro, 2011 de http://www.nbcphiladelphia.com/news/local/Mystery-Couple-Pay-It-Forward-79179347.html

[2] Aknin, L., Dunn, E., & Norton, M. (2011). Happiness runs in a circular motion: Evidence for a positive feedback loop between prosocial spending and happiness. Journal of Happiness Studies DOI: 10.1007/s10902-011-9267-5

[3] Dunn, E., Aknin, L., & Norton, M. (2008). Spending money on others promotes happiness. Science, 319 (5870), 1687-1688 DOI: 10.1126/science.1150952

[4] Buchanan, K. E., & Bardi, A. (2010). Acts of kindness and acts of novelty affect life satisfaction. The Journal of Social Psychology, 150 (3), 235-7 PMID: 20575332

[5] Otake, K., Shimai, S., Tanaka-Matsumi, J., Otsui, K., & Fredrickson, B. (2006). Happy people become happier through kindness: A counting kindnesses intervention. Journal of Happiness Studies, 7 (3), 361-375 DOI: 10.1007/s10902-005-3650-z

[6] Feingold, A. (1983). Happiness, unselfishness, and popularity. The Journal of Psychology, 115 (1), 3-5 DOI: 10.1080/00223980.1983.9923590

[7] Lyubomirsky S, King L, & Diener E (2005). The benefits of frequent positive affect: Does happiness lead to success? Psychological Bulletin, 131 (6), 803-55 PMID: 16351326

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Não ligue pro Ricardão atrás da cortina


Ceticismo.net 23 Jan 2012, 6:46 pm CET

Meme — ao contrário do que possam pensar — tem pouco a ver com aqueles desenhos feitos no Paint e de gosto, "história" e graça duvidosos. O termo criado por Richard Dawkins no livro "O Gene Egoísta", e de uma forma geral estabelece que partículas culturais passam de sociedade em sociedade, podendo ser desde ideias até valores éticos/morais, nem que seja uma frase de efeito que acaba participando de nossa cultura. Todo mundo sabe isso, principalmente o pessoal que mora no Canadá, como disse a Luiza.

Depois que o Dan Brown escreveu aquele livro dos Anjos e Demônios, todo mundo ficou com mania de Illuminatis e coisas do gênero. Maníacos por conspirações existem desde que o mundo é mundo, e aquela baboseira sobre ET, Área 51 Haaarp etc, regados com Shivas Zeitgeist no jantar, veem mensagens ocultas, símbolos satânicos e ações da maçonaria. Para deixar meu dia mais "feliz", ainda recebo um e-mail questionando tudo na base do "E se for verdade?" Tem horas que eu me sinto como se estivesse num documentário do History Channel, e isso não é um elogio…

A maluquice de hoje, que eu não aguentei esperar para postar na sexta-feira, começa de modo inquisitivamente estranho . Para proteger seu autor de si mesmo, eu retirei o seu nome, mas mantive a grafia:

Olá meu nome é <nome-da-figura>, tenho 16 anos e estou passando por uma fase complicada. Tenho queimado muitos neurônios tentando formar uma opinião definitiva sobre a existência ou não do "bem" e do "mal".

Uma coisa que me assusta e até me atrapalha na formação dessa opinião são essas ceitas ocultistas. Existem teorias sobre uma nova ordem mundial, sobre os Illuminatis e tudo mais.

O que me preocupa é que em vários filmes atuais, comerciais, videos de artistas famosos aparecem os famosos símbolos Illuminatis…

Gostaria se possível que vocês me enviassem uma opinião mais embasada ou até mesmo criassem um artigo sobre algum desses assuntos tão perturbantes.

Muito obrigado por lerem esse e-mail.

Nem sempre tenho saco de responder a estas bobagens, mas sei lá. Encontrei uma apsara dançando dentro do armário do banheiro e resolvi dar uns minutos de minha prestigiosa atenção. Logo, respondi:

Ok, você fica perturbado com  símbolos Illuminati nos filmes. Você fica impressionado com dinossauros em meio a uma ilha? Você fica preocupado com vampiros que brilham no sol? Você fica preocupado com invasões alienígenas? Você fica preocupado com monstros, fantasmas, bruxas, demônios e com o Império Galáctico vir dominar a Terra? Então pare de acreditar em filmes de illuminatis. Eles só apareceram por causa de UM livro do Dan Brown.

Abraços

De alguma forma eu pensei que isso é o suficiente para a pessoa parar para pensar nas implicações do que está falando e associar com o que eu falei. Alguém aqui ouviu alguma menção a Illuminatis antes do tio Brown? Não, mas uma partícula cultural parece que foi disseminada. Gente que se aproveita de qualquer coisa para lançar seus próprio livros, de forma a tirar dinheiro dos otários. Dan Brown criou uma ficção totalmente doida (e cheia de erros históricos e teológicos) a respeito de Jesus e Maria Madalena. Os editores do historiador Bart Ehrman instaram-no a escrever um livro sobre o tema, já que seus agentes também gostam de dinheiro e o assunto ainda estava quente e merecia uma fatia do mercado. Ehrman escreve um bom livro e de fácil assimilação sobre toda aquela loucura cristológica oriunda da mente insana do Dan Brown, evidenciando que ele sequer usou o Google por mais de 3 minutos.

Infelizmente, as pessoas não conseguem enxergar o óbvio logo de saída, então eu recebi a contra-resposta do meu e-mail:

Obrigado por responder André.

Olha se esses símbolos só aparecessem nos filmes eu não ficaria tão encabulado, eles aparecem muitas vezes em clipes de músicas (Lady GaGa, Kate Perry, Rihana), lembrando que não são somente símbolos Illuminatis que aparecem, símbolos Maçons também estão presente em vários lugares, a Disney mesmo faz a gente pensar quando eles colocam símbolos e mensagens teoricamente "satânicos" em desenhos infantis.

Várias músicas falam em suas letras de um tal de "Rain Man", o Eminem mesmo tem uma música em que ele fica gritando "Raaain Man" e pede pra todo mundo gritar junto, teoricamente esse "Rain Man" seria um demônio. Uma coisa que me assustou um pouco foi no "Rock in Rio" quando o grupo Slipknot tocou uma musica em que eles diziam "If you’re 555" e todas as pessoas presentes gritavam "Then I’m 666". Porque a maioria dos cantores/bandas mais famosos tem esse tipo de mensagem ou influência? O que vcs acham sobre isso?

Isso é demais para a minha mente racional. Então temos uma conspiração sei-lá-que-quê nas músicas da Lady GaGa. LADY GAGA! Além da Katy Perry e Rihanna (dois "N"). Será que foi por isso que a Rihanna entrou na porrada? Ela tava tentando transmitir secretamente as verdades sobre os maçons e estes enviaram seu carrasco, Chris Brown, para dar um jeito nela? Bem capaz. Nesse ponto, vejo que argumentar perdeu o sentido, então só cabe o sarcasmo, onde eu disse "Eu comprei um esquadro e um compasso para as minhas filhas usarem no colégio. O professor de matemática e geometria devem ser maçons…". Isso aliado a perguntar se ele viu as "referências satânicas" da Disney em sites conspiracionistas.

Com relação ao Rain Man, eu perguntei se o filme do Tom Cruise e do Dustin Hoffman é uma apologia ao Satanismo. Deve ser e a Academia deve estar cheia de adoradores do Diabo, já que Rain Man ganhou o Oscar de melhor filme, melhor direção (Barry Levinson), melhor ator (Dustin Hoffman) e melhor roteiro original. O que as pessoas não entendem é que Rain Man tem pouco a ver com Satanismo. Rain Man é um modo comum de se referir à Síndrome de Savant (pelo menos, ficou depois do filme. Memes, entenderam?). Muito difícil saber isso ouvindo música do Eminem, mas fácil se você procurar no Google. Por sinal, o "rain man" que inspirou o filme morreu em 2009.

Para terminar meu e-mail respondendo a contra-resposta, eu escrevi:

Você não ouviu a piadinha da Luiza no Canadá? Isso deve ser uma influência malévola, não é mesmo?

Faz o seguinte. Pare de ler merda na Internet  e estude sério para entrar numa faculdade que preste. Mas, de repente, eu sou um Illuminatti e quero desviar a sua atenção. Não acredite em nada do que estou falando. Continue acessando este monte de besteiras que você tem lido até agora. Enquanto isso, um chinesinho está estudando PRA <bleep> para poder ter acesso a uma boa Universidade na China com o vestibular mais difícil DO MUNDO, concorrendo com milhões (MI-LHÕES) de outros chinesinhos, fazendo da China o país com o maior número de artigos científicos publicados NO MUNDO.

Fica aí com suas conspirações e depois entre na fila de um bolsa-família, pois é isso que você conseguirá se não largar este monte de merda e for estudar de verdade. Eu já tenho meus títulos, profissão e emprego certos. Você é quem sabe.

André, o Illuminati (aperto de mão secreto)

Sim, eu sei que peguei pesado. Mas tem hora que cansa e as pessoas insistem de acreditar nas coisas. Foi exatamente o comportamento que eu descrevi em A Necessidade de uma Crença. As pessoas querem viver num mundo de mistério e/ou magia. Para elas, é frustrante saber que não haver uma escola como Hogwartz ou que estender a mão para o controle remoto não fará com que o dispositivo venha voando. O mundo é chato sem espiões ou um "sistema" tentando te manipular. Seria legal uma máquina de fazer terremotos, pois poderíamos ter o que reclamar, mas o mundo é chato. Daí, o bando de idiotas que viu V de Vingança acha que andar com a máscara do Anonymous é um ato de rebeldia. Não é, é um ato de estúpida idiotice, que se não fosse pelo filme, ninguém saberia quem foi Guy Fawkes, o terrorista que a Inglaterra mandou pra vala. Um detalhe que as pessoas não sabem ou esquecem: Guy Fawkes não objetivava nenhuma liberdade de cidadãos e sim matar Jaime I e todo o Parlamento porque eles eram protestantes e Fawkes queria uma Inglaterra católica. Lindo, não?

A troca de e-mails já era insana (eu mesmo não sei onde estava com a cabeça!), então segue-se a seguinte pérola:

Ok, tudo bem. Você não leva minha dúvida a sério. Pensei que pudesse me ajudar a esclarecer um pouco esses fatos.

Você não é um Illuminati… ou é? Vc parece ser inteligente (Illuminatis devem ser inteligentes), que estranho tem um Illuminati trocando e-mails comigo! Se vc puder me dizer se é ou não eu ficaria bem contente.

Abraços.

Isso agora parece mais uma questão psiquiátrica. Então, só me resta encerrar a questão:

Resumirei a situação para você: Alguém vai virar tema de postagem de hoje. Consegue adivinhar quem é?

E eu sou o operador do Haaarp. Achamos que você está sabendo demais e daremos um jeito de sua carteira de identidade ser confiscada, colocaremos um implante em seu cérebro e te levaremos para a Área 51, o que é uma boa ideia. Dá tchauzinho pra cortina. Tem um cara atrás dela.

O mundo não faz sentido. Se fizesse, eu ganharia 200 mil reais de salário, livres de impostos. O mundo simplesmente é o que é. Se você acha que a Globo te manipula, não e a Globo que e a vilã, você é que é um idiota que se deixa levar por ela. A função dela é gerar lucro e o lucro é gerado com audiência. As pessoas não são estúpidas porque vêem a programação débil mental dela. A programação débil mental é feita MEDIANTE o público estúpido, na base do "dar ao cliente o que ele quer", e o que se quer é os BBB da vida. Se as pessoas não gostassem, ninguém veria. Simples assim.

Dizer que há mensagens escondidas se tocarmos discos ao contrário gerou duas coisas: idiotas que corriam pra comprar os discos pra ver se é verdade e idiotas que tinham que comprar os discos mais uma vez, pois eles estragaram os primeiros de tanto tentar escutar tais mensagens.

Mas Zeitgeist disse que existe uma conspiração. Dan Brown falou dos Illuminatis. Se eles falaram, então deve ser verdade, não é, mesmo? Acho que dormirei debaixo das cobertas da minha mãe, já aqueles possuem protetor contra as sondas que enfiam no reto da população.

A verdade está lá fora. A burrice é que está dentro das pessoas.

Não existe polícia em São Paulo


Bule Voador 23 Jan 2012, 1:00 pm CET

Autora: Camila Pavanelli

Fonte: Amalgama

Editora: Rayssa Gon

Uma das coisas que The Wire me ensinou sobre a guerra contra as drogas é que ela acaba com a polícia, impedindo-a de realizar as funções de proteger e servir que deveriam ser as suas. A guerra contra as drogas transforma policiais – que protegem uma comunidade – em soldados – que saem por aí fazendo batida e prendendo traficante pé-de-chinelo. E, é sempre bom lembrar, para que haja uma guerra, é preciso que haja um inimigo. Muito rapidamente, os cidadãos que o policial deveria proteger transformam-se em inimigos, e os bairros que deveria policiar transformam-se em território ocupado.

Além da guerra contra as drogas – que, particularmente na cidade de São Paulo, assume contornos específicos de guerra contra os dependentes químicos -, o estado de São Paulo vem sediando também guerras contra estudantes e contra manifestantes que usam o espaço público para advogar por uma causa qualquer. A recente guerra contra os moradores (que amanhã serão sem-teto) do Pinheirinho não foge a esta lógica de transformação da polícia em exército de ocupação. Há aí uma pequena diferença, porém, que vale a pena ser apontada.

Nas outras guerras citadas acima, as vítimas da polícia costumam ser vistas pela imprensa e por boa parte da opinião pública como uma combinação de três ou quatro adjetivos: viciados e maconheiros, desocupados e vagabundos. Faça uma busca por “maconheiro vagabundo USP” e divirta-se, só que ao contrário.

No caso dos moradores do Pinheirinho, outro estigma já lhes está sendo aplicado: o de bardeneiros esquerdistas. Era de se esperar: sem-teto – sem-terra – MST – Stedile – aquela vez que apareceu no Jornal Nacional um bando de sem-terra destruindo uma laranjeira – etc.

Esta, porém, não é uma diferença significativa. Estigma é estigma, seja de vagabundo seja de baderneiro. Ambos são contra a lei e a ordem, em todo o caso.

A diferença maior que eu vejo é que, com os chamados maconheiros e vagabundos que vem apanhando da polícia ao longo de toda a gestão do PSDB no estado de São Paulo, não existe um beneficiário claro e cristalino da porrada, a quem se possa atribuir um nome e um CPF. Estudantes da USP e dependentes químicos do centro apanham, e quem ganha com isso? Os interesses são difusos.

No caso do Pinheirinho, o beneficiário da porrada tem nome – Naji Nahas – e CPF, se bem que se fôssemos um país sério seu CPF seria inválido.

Para os que defendem as ações do governo e da polícia, ficou um pouquinho mais complicado. Porque desta vez, se você defende a invasão do Pinheirinho, não adianta dizer que está do lado da lei e da ordem. Você está do lado de Naji Nahas.

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A termodinâmica e um problema no RSS


Ceticismo.net 22 Jan 2012, 4:41 pm CET

Alguns leitores me chamaram a atenção por uma coisa estranha que aconteceu no RSS. Como vocês sabem, vocês podem inscrever o Cet.net no leitor de RSS, de forma a ver na hora quando um artigo e postado e poder lê-lo de maneira rápida, com conteúdo integral, salvo quando são páginas, mas eu sempre deixo uma "chamada" para o artigo principal, de forma que vocês saibam quando conteúdo sob este formato aparece.

Pois bem, esta semana apareceu um fragmento de artigo sobre Termodinâmica que não apareceu no site. Na verdade, ele apareceu no site, mas eu o apaguei em seguida. Por quê? Simplesmente porque o imbecil aqui clicou no botão "publicar" ao invés de "salvar" do Windows Live Writer. Isso não significa, é claro, que não teremos este artigo, pelo contrário. Ele está em franca preparação, mas daí me surgiu um problema.

Antes, deixe-me explicar uma coisa. Eu realmente estou de saco cheio de ver as pessoas confundindo totalmente o significado das leis da Termodinâmica. Conceitos como a Segunda Lei, Entropia e uma suposta desorganização que não existe pululam a Internet, servido unicamente para desinformação. Então, no ápice de minha bondade (e aproveitando que tenho mais tempo livre, já que estou de férias), resolvi trazer a vocês, súditos, as Tábuas da Lei, digo, um texto explicando o que é a Termodinâmica, começando desde os tempos da Grécia Antiga até usinas nucleares, passando pela Revolução Industrial e indo até as bases que fundamento a Teoria da Evolução. Como é do meu feitio, não estou escrevendo para físicos. Acho que este é o erro de muitos blogs de Ciência, onde os autores parecem escrever mais pra si e pros seus amigos de faculdade do que para os leitores (e o pior que vejo gente aplaudir, tendo plena certeza que eles não entenderam nada, mas isso não é problema meu).  No artigo quilométrico que estou preparando, qualquer equação (das pouquíssimas que colocarei) será facilmente entendida por uma criança de nível fundamental. Não haverá (espero) uma única equação com derivadas ou integrais, já que elas são desnecessárias perante o que quero abordar.

Sendo assim, acabei com uma batata quente na mão, para usar uma expressão de acordo com a temática: o artigo está ficando muito grande (para padrão blog). Sabendo da dificuldade da maioria das pessoas em ler artigos grandes (com mais de 1 parágrafo) vejo-me com um certo problema, já que, como percebi no artigo do vidro, as pessoas correm para comentar e perguntar coisas que estavam no artigo, evidenciando que não se deram ao trabalho de ler, o que é frustrante.

Então, como sou um cara extremamente humilde e modesto em toda a minha soberba e superior grandiosidade magnânima, estou pensando em liberar os capítulos aos poucos, à medida que eles estarem indo ficando prontos. Na verdade, NENHUM está pronto, já que eu tenho uma metodologia toda própria de escrita (escrevo as partes à medida que eu quero e sobre o assunto que estou interessado em determinado momento, sem seguir uma plano de ação linear). Deixo claro que os artigos liberados pouco a pouco podem ser reescritos, revisionados ou deletados mediante o que me der na telha na hora. Como sou um cara legal, avisarei quando o artigo completo chegar ao fim, de forma que vocês possam relê-los (coisa que eu sei que muitos não farão).

Para mim, não faz nenhuma diferença em publicar os capítulos um a um ou soltar tudo de uma vez sob a forma de "página". Dessa forma, fia a critério de vocês me dizerem o que acham melhor: aos pouquinhos ou metendo tudo de uma vez? (ops!)

Aproveitem, pois não é todo dia que estou tão democrático assim. ;) Coloquem nos comentários o que vocês acham.

O ciumento e o religioso (parte 1 de 3)


Bule Voador 22 Jan 2012, 4:00 pm CET

Autor: Daniel Gontijo

Nós temos que evitar o erro de Otelo. Na peça de Shakespeare, Otelo acusa sua mulher, Desdêmona, de estar apaixonada por Cássio. Otelo exige que ela confesse, já que vai matá-la por sua traição. Desdêmona pede a Otelo para chamar Cássio, para atestar sua inocência. Otelo revela que já matou Cássio. Desdêmona percebe que não será capaz de provar sua inocência, e que Otelo vai matá-la (Ekman, 2003/2011, p. 74).

Por “temos que evitar o erro de Otelo”, Paul Ekman, psicólogo e autor de A Linguagem das Emoções, alerta-nos sobre o perigo em se deixar que o afeto guie inadvertidamente o que pensamos e fazemos. Após matar sua esposa, Otelo descobre que as supostas evidências de que estava sendo traído tinham sido forjadas por Iago, um subtenente invejoso e rancoroso. Cego pelo ciúme, o general foi incapaz de ouvir o que Desdêmona e Cássio tinham a dizer, e sua irracionalidade custou não duas, mas três vidas.

Se Otelo estava em péssimas condições para pensar e agir, Desdêmona estava em uma cilada: afinal, como provar que ela não estava apaixonada por Cássio e não o tinha como amante? Inevitavelmente, lembrei-me da posição desajeitada em que se encontram alguns ateus: como provar que Deus não existe? O filósofo Bertrand Russell (1952) criou uma analogia curiosa para solucionar o dilema. Entretanto, parece que o bule de chá voador não é quente o bastante para competir com o fervor das crenças religiosas. Antes de sugerir o porquê, pedirei licença a William Shakespeare para recriar um trecho da trágica história de Otelo. Conseguiria o general rever suas convicções?

A morte, digo, Otelo espreita Desdêmona.

Digamos que o tenente Cássio, suposto amante de Desdêmona, não tivesse sido assassinato. Otelo, com as emoções à flor da pele, iniciaria o inquérito confiante sobre estar diante de um traidor: “Onde esteve na noite passada?”, “O que costuma fazer ao entardecer… e com quem?”, “Levando em conta sua ousadia, inteligência e sutileza, por que eu não deveria desconfiar de você?” e, pior ainda, “Como o lenço com que presenteei minha mulher foi parar nos seus aposentos?”. Presumivelmente, o general não se mostraria satisfeito com as explicações do tenente. Diante de qualquer argumento, uma nova e mirabolante objeção se faria crescer. Haveria sempre uma forma obstinada e criativa de sair pela tangente. Em última instância, Otelo poderia até assumir que não tem evidências que corroborem sua acusação, mas poderia, com persistência, inferir que há ao menos a intenção da traição, nutrida por uma paixão secreta, por parte dos acusados. Em suma, o erro de Otelo consistiria não só em deixar que o coração apunhalado tomasse as rédeas do interrogatório, mas em fazer uma exigência dificilmente realizável: esperar por provas de que a esposa não é infiel e de que não intenta sê-lo.

Se Desdêmona estava em apuros, os ateus estão na pior. Pode-se, com certo custo e paciência, atestar a incoerência de uma hipótese — “Sou traído pela minha mulher” — à medida que novos dados são levantados — “Enquanto Desdêmona está na aula de línguas, Cássio está em treinamento no quartel” e “Há não um, mas dois ou mais lenços daquele tipo”. Nesse quesito, os ateus são peritos — “O universo não tem uns poucos mil anos, mas bilhões”, “O ser humano é um produto da seleção natural” e “O big-bang marca o início do Universo”. Mas os religiosos hão de insistir: “Deus gerou o big-bang e orientou a evolução das espécies, e certos trechos das escrituras sagradas, como o que relata a criação do mundo e dos seres vivos, não são literais, e sim alegóricas”. Se a infidelidade pode ser, com muito custo, apenas indiretamente comprovada, a tarefa dos ateus é, no mínimo, hercúlea. Afinal, como provar a inexistência de uma entidade invisível, que sempre existiu, cujos sinais e intenções são misteriosos e cuja natureza é incompreensível por nós? Não parece mais plausível que o ônus da prova seja invertido? Que os religiosos, assim como os ciumentos, sejam responsáveis por comprovar aquilo que afirmam existir.

Para Russell, a dificuldade em se desmentir uma hipótese não a torna automaticamente verdadeira.

Mas há outros empecilhos.  Como sugeri outrora,  há mais em sistemas de crenças do que proposições racionais — mesmo quando consideramos o ateísmo. Muitas pessoas inteligentíssimas, incluindo cientistas, conseguem, de alguma forma, conciliar fé e razão. Para compreender isso, talvez tenhamos que abordar o que alguns teóricos chamam de valor de crença. Como qualquer outro comportamento, o crer cumpre certas funções. Há consequências distintas em se orientar pelo mundo crendo que “Todo homem é cachorro” ou que “Alguns homens traem, mas há os que são fiéis”, e o homem que, por certos preceitos, procura uma mulher virgem com quem se casar pode, nos dias atuais, ficar cronicamente desconsolado. Da mesma forma, posicionar-se positiva ou negativamente à hipótese de que Deus existe deve fazer a diferença na vida de uma pessoa. No próximo texto, discutirei algumas das prováveis implicações envolvidas no teísmo e no ateísmo. Antes disso, e para lembrar ou para apresentar aos que não conheciam, fiquemos com a famigerada analogia de Russell (1952):

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados — em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instalada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.

Referências

  • Ekman, P. (2003/2011). A Linguagem das Emoções. São Paulo: Lua de Papel.
  • Russell, B. (1952). Is there a God? Acesse o artigo original ou sua tradução.

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A História de Haroldo Galves - O lado DELE [4]


Uma ateia de bom humor 21 Jan 2012, 4:35 pm CET

CRONOLOGIA DOS FATOS COMO REALMENTE ACONTECERAM.
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Palavras do advogado de Haroldo Galves: "A sua condenação não foi por pedofilia, logo não pode ser assim taxado A imputação de algum crime a outra pessoa caracteriza calúnia. Quem o chamar ou divulgar para terceiros que você é pedófilo está sujeito a um processo por calúnia."
[ Palavras do advogado de Haroldo Galves: "A sua condenação não foi por pedofilia, logo não pode ser assim taxado A imputação de algum crime a outra pessoa caracteriza calúnia. Quem o chamar ou divulgar para terceiros que você é pedófilo está sujeito a um processo por calúnia."]
************************************************************************************************ 1Desde 2006 participo da LdE (Liberdade de Expressão, comunidade no Orkut). Meros 6 meses depois em que participava lá com discussões saudáveis e inteligentes, a comunidade foi invadida por 'personagens criadas por pessoas carentes de atenção, do tipo Netzistas (nazistas de Internet)' pregando ódio racial, anti-semitismo, homofobia e ódio a ateus. Assumi a moderação da comunidade porque pedi ao dono que tomasse alguma providência e ele não tendo tempo, passou-me a moderação e depois passou-me a comunidade que prometi, e cumpri, limpá-la de todo tipo de lixo que se esconde covardemente atrás do anonimato. Nisso, fakes de atuais e, principalmente de um atual solitário difamador de ateus e homossexuais e que se fez inimigo pessoal meu e da Åsa, para não falar de vários de seus ex-aliados (não digo amigos porque acho que ele nunca teve amigos). Os ataques de todo tipo continuaram e, com a identificação de meu nome completo por uma pessoa com quem trocava mensagens e fez mau uso da minha confiança, meu endereço e telefone também foram descobertos e eu e principalmente minha mãe, passamos a receber agressões, minha mãe até mesmo obscenas e ameaças. Tive que mudar meu número de telefone. 2Nesta época Åsa, que já participava da comunidade e defendia aberta e corajosamente ateus e homossexuais de crimes de injúria e da pregação de ódio contra estes e outras minorias, também se tornou alvo dos ataques de tais covardes. Tive muitos moderadores, mas acabei ficando durante um certo tempo somente com a Åsa porque foi a única moderadora em que pude confiar. 3 - Aproximadamente na segunda metade de maio de 2009 (lembro que tive meu computador apreendido em 4 de junho de 2009), uma pessoa com avatar e nick femininos se ofereceu como amiga ao meu antigo e extinto perfil de dono da comunidade e, em uma comunidade, não na LdE, mas numa que eu visitava com freqüência, Anti Politicamente Correto ou uma de Direito, não me recordo, comentou comigo numa tópico que queria me ajudar a denunciar "esses homens santos, homofóbicos, etc." (algo nesses termos) e me indicou que conhecia um arquivo com uma conversa gravada no MSN entre um adulto e uma menor de idade que poderia ser identificado mas não tinha o arquivo, havia sabido dele e que poderia ser encontrado no Limewire e num outro programa de compartilhamento de arquivos, não me lembro qual. Como recentemente eu havia colocado uma restrição à exposição de imagens de crianças nos avatares dos membros da LdE depois que vi mais de um avatar de um desses mesmos homofóbicos e racistas usando uma imagem de uma criança menor de 3 anos de costas numa praia e nua (tipo propaganda de loção de proteção solar), e usando linguagem racista, violenta e fazendo apologia de violência, proibi o uso de avatares com crianças nas fotos, como também tinha proibido a exibição de fotos de álbuns para humilhar, expor ou insultar os desafetos. Como recentemente havia proibido o uso de fotos de crianças nos avatares e feito um comentário na própria LdE de que achava que "pedófilos deveriam ser enforcados pelo saco" me reportando a casos de abuso de crianças alguns casos até com assassinato da vítima, não estranhei essa denúncia. Baixei o Limewire mas não soube configurar direito e o achei muito ruim e perguntei se precisava ser o Limewire ou outro servia. A pessoa, um fake, disse que tanto fazia. Como tinha o E-Mule, usei esse para procurar tal arquivo que poderia identificar dados sobre um predador sexual. Não tendo nenhuma informação específica sobre o arquivo, nenhuma palavra-chave, baixei lotes de arquivos todos ao mesmo tempo usando palavras-chave que aludiam à idade de crianças e a termos como "webcam". A maioria dos arquivos vieram dentro de arquivos compactados, .rar, ou .zip, cujo conteúdo só é conhecido depois que você termina os downloads e os abre. Ao escolher as palavras chaves apareceram centenas de arquivos, selecionei todos, cliquei uma única vez em "iniciar download" e o resto o software fez sozinho. Claro que não fiquei "baixando arquivo por arquivo, olhando para a tela". Apenas dei prosseguimento a outras coisas e em algumas horas quase todos os downloads haviam terminado. Eles foram colocados automaticamente numa pasta que eu deixava na área de trabalho chamada "downloads", pasta alvo para arquivos que eu baixava do E-Mule. Fiquei ainda alguns dias sem mexer em nada, nos últimos dias de maio abri alguns dos arquivos, ignorei os que não davam pistas alguma sobre o arquivo mencionado pela pessoa e acabei descobrindo não um, mas DOIS arquivos de gravação de conversa pelo MSN entre uma adulto (presumivelmente, já que não havia foto verdadeira) e uma menina entre 11 e 13 anos. Essa menina no começo de cada um dos arquivos que eram trechos parciais das conversas, já estava no processo de se despir diante da webcam. Era incitada pela pessoa do outro lado. A imagem era bem fechada de modo a não mostrar a maior parte da conversa escrita. Mas o hotmail da menina era visível apesar da baixa definição e embora eu não me recorde do nome inteiro, posso dizer que começava com [conteúdo sigiloso]. O do aliciador eu só consegui ver depois de muitas tentativas e me lembro que começava ou continha a palavra [conteúdo sigiloso]. Dois fatos importantes:
1-eu decidi baixar os arquivos somente depois que ao consultar o Google sobre a licitude de tal procedimento, fui convencido pelos resultados que encontrei, de que não era crime possuir arquivos com pornografia com menores de 18 anos no computador, apenas possuir e que, porém, uma proposta de lei estava sendo enviada ao Senado para tornar a simples posse também um crime. Como o Google faz uma pesquisa default em que TODAS AS DATAS são puxadas e eu não tive, como ainda não tenho o hábito de, verificar a data do noticiário sobre o fato de "a lei estar ainda para ser votada pelo Senado", resolvi baixar e prosseguir com a investigação (só soube que a lei já havia sido aprovada uns 7 meses antes quando o delegado comentou que eu tivera "azar pois até o final do ano passado isso não era crime”, e só pude pesquisar e entender o porque de meu equívoco ao pesquisar no Google, evidentemente DEPOIS que saí do centro de detenção). Já tinha anteriormente identificado potenciais predadores sexuais usando Engenharia Social, e mantive em meu computador que, NÃO TEVE UMA PERÍCIA FEITA A PEDIDO DE MEU ADVOGADO E EM MINHA PRESENÇA (FIQUEI PRESO DURANTE TODO O TEMPO SEM COMUNICAÇÃO COM O MUNDO EXTERIOR) porque o "meu" advogado, só se tornou "meu advogado" umas duas semanas ou menos antes da data da audiência e JÁ HAVIA VENCIDO O PRAZO PARA PEDIR A PERÍCIA DA DEFESA, só a perícia da promotoria havia sido feita, que obviamente só procurou o que lhe convinha. TIVESSE SIDO FEITA UMA PERÍCIA COM MINHA PRESENÇA E INSTRUÇÕES, SE ENCONTRARIAM BLOCOS DE NOTAS COM ANOTAÇÕES DE TELEFONES DE POTENCIAIS E PROVÁVEIS ALICIADORES DE CRIANÇAS (PEDÓFILOS, PARA OS QUE NÃO CONHECEM O EMPREGO LEGÍTIMO DA PALAVRA E SUAS RESTRIÇÕES), TELEFONES CELULARES, CASEIROS E NUM CASO, O ENDEREÇO COMPLETO, EM SÃO PAULO, COM NOME DA PESSOA, TELEFONE RESIDENCIAL, COMERCIAL E CELULAR. [Nota importante: Fiquei no escuro, sem comunicação telefônica, sem advogado constituído e sem acesso a qualquer meio de comunicação interativo e, é claro, sem acesso à Internet durante os 149 dias em que estive detido à espera da audiência com o juiz. Enquanto eu me encontrava detido e impotente,  inimigos pessoais já mencionados, praticamente quase tudo feito por apenas UM, tiveram tempo e liberdade para criar uma rede de difamação e calúnia pelas redes sociais e pelo Youtube graças ao incidente de tal fato, minha detenção com tal material, sem nenhuma legítima relevância jornalística, exceto para um programinha de TV que atende às classes D e E e é um espaço alugado para conseguir anunciantes e portanto vive do sensacionalismo, de gritaria, de histeria (falsa e calculada), de suposições infundadas (legendas com o texto: “maníaco da Internet”, “a polícia suspeita estar atrás de uma rede internacional de pedofilia”, factóide e não corroborado por informações reais do que a polícia realmente investigava, “o medo dos vizinhos é que Haroldo pode ter abusado de crianças da vizinhança”,  calunioso e sem a menor base em fatos, mas segura a audiência, “a polícia procura vítimas do maníaco da Internet”, multiplamente falso, especulativo, difamatório e com a única intenção de segurar e aumentar a audiência, etc.). De resto, não fosse o desespero dos produtores de um programa classe Z órfãos de ataques de Pitbull que precisam segurar a audiência entre um e outro motoboy acidentado visto por helicóptero como se fosse um novo 9/11 para pobres de espírito e pessoas sem noção de relevância jornalística, ninguém sequer saberia desses fatos e não teriam adquirido, na Net, a aparente importância que adquiriu. Lamento que entre os manipulados se encontram algumas poucas pessoas de inteligência e caráter superior, mas que se renderam à fraqueza diante de uma construção desinformativa que nestes artigos, eu desconstruo tijolo por tijolo, byte por byte.] 2 - na delegacia, quando além de admitir (não confessar, com a conotação de "estar arrependido de ter cometido um crime) que eu realmente era o autor dos downloads, que ninguém me auxiliara ou me forçara e que os havia feito pelos motivos que descrevi acima, tinha esperança de provar ter agido de boa-fé e de mostrar a localização dos endereços e telefones dos suspeitos que eu mesmo investigara à polícia e conseguir me defender em liberdade e com pleno acesso ao meu computador. Muita ingenuidade de minha parte. Fizeram o que é típico de policia descerebrada: fizeram promessas de me ajudar se "eu passasse nomes de comparsas" ao que eu reagi com indignação e repeti o que já havia dito e pedi para poder mostrar as provas que tinha em meu computador, pedido que foi, é claro, sumariamente negado. Desde então nunca mais vi ou toquei naquele computador, só a perícia da acusação, mas não meu advogado munido de instruções e vontade de encontrar fatos que abonariam minhas palavras. As tais pessoas que eu identificara e que só não denunciara ainda por serem casos sem comprovação efetiva (não haviam realmente abusado de alguma criança e eu temia que, ao ter tentado identificá-los, pudesse eu  ter cometido um crime também, por isso não comunicara nada, ironicamente algo que me foi cobrado pelo juiz no dia da audiência! [“Porque o senhor não comunicou à polícia o que encontrara?”]).
4 - Fui levado à carceragem poucas horas depois de ter chegado lá e preenchido o B.O. Quando fui transferido para outro setor para ser fotografado, vi um cameraman à distância apontando em minha direção. Lembrei a ameaça de um dos policiais de que "ligaria para o datena"  mas não acreditei que o fato fosse digno de repercussão, mesmo num programinha fuleiro e de baixo nível como aquele, olhei para trás a procura do alvo da lente da câmera, mas descobri que a câmera estava lá para mim mesmo. Em nenhum momento fui entrevistado, não havia repórter, só uma câmera para criara material de consumo para o programa do datena. Só soube do grau de difamação sofrido por mim e os danos causados à minha mãe quando, preso, outros presos me disseram que me haviam visto no datena e que o "Magno Malta havia me chamado de maníaco", e outras coisas e "acabado comigo", algo que nunca comprovei. Mas sei hoje que minha imagem foi utilizada com a legenda ou as palavras faladas  "Polícia procura vítimas do maníaco da Internet". Sei que foi sugerido, como se houvesse alguma suspeita, algo que nunca houve, em menos de 3 horas depois que eu fui preso! de que eu seria parte de "uma organização internacional de pedofilia" e de que poderia "ter abusado sexualmente de crianças da vizinhança"! Esclarecendo, tão friamente quanto consigo e preciso me manter para ser sucinto e objetivo (embora minha revolta e mágoa me façam querer extravasar tudo o que eu penso e consertar todas as injustiças), afirmo sujeitando-me às penas da lei e a quaisquer meios, legais, jornalísticos ou de outro tipo que neguem minhas afirmações e a quaisquer conseqüências legais a que estiver sujeito se estiver mentindo que:
1-Nunca tive qualquer envolvimento emocional, romântico, sentimental e menos ainda, sexual com qualquer pessoa menor de 18 anos desde que EU PASSEI a ser maior de 18 anos; 2-Não sofro de nenhuma parafilia, mais precisamente, da denominada 'pedofilia' que é descrita como "excitação sexual por pessoas menores que 14 anos que excluem características anatômicas sexualmente secundárias", ou seja, corpos de crianças. Não tenho interesse sexual por crianças e nem sinto excitação sexual por crianças e desafio qualquer teste psicológico ou psiquátrico a provar o contrário; 3-Afirmei a verdade ao dizer a) que baixei os arquivos por sugestão (mas não forçado) de um ou uma 'denunciante' que fez uma denúncia numa comunidade do Orkut e através de uma mensagem pessoal; b) encontrei tais arquivos, tentei identificar o criminoso, sem sucesso, contudo e c) não procede nenhuma acusação de que teria baixado tal material     c1-sabendo tratar-se de crime na época e     c2- com intuito de "me deleitar com imagens de crianças e adolescentes, semi-nuas,            nuas ou praticando sexo com adultos e pior ainda, sendo forçadas.
Aqui, eu deixo um espaço em branco, por razões de economia e objetividade e por não ser o objetivo deste depoimento neste blog e não cito as inúmeras violações de meus direitos constitucionais, violências físicas e morais a que fui submetido, muito além mesmo da 'gravidade' do crime de que fui acusado, se fosse legitimo que presos em aguardo de julgamento fossem tratados com brutalidade arbitrária por funcionários do Estado e por outros presos, muitos deles assassinos que deixaram crianças órfãs ou que venderam e vendem drogas a crianças  e as levam a se prostituir, não menciono os danos físicos (um deles pelo menos, provavelmente, permanente), traumas psicológicos e sofrimento que não pode ser traduzido adequadamente  em palavras e nem imaginado, além de uma longa história de ostracismo, discriminação e atos de ódio dirigidos contra mim e que resultaram em danos à saúde de minha mãe, principalmente em virtude de reportagens espúrias e mentirosas veiculadas no calor do momento, sugerindo falsidades que moldaram a imagem que pessoas que pouco me conhecem, passaram a ter de mim. Isso fica para o futuro próximo e outros veículos de divulgação. Descrevo agora a farsa, a montagem feita por inimigos pessoais meus e de dona Åsa, as distorções de fatos e citações de fatos sem comprovação factual que foram e estão sendo usados para atingir-me por motivos pessoais e à Dona Åsa Heuser, tanto por motivos pessoais como para atingi-la por defender as causas LGBT, feministas e para atingir as causas abraçadas pelo Movimento Ateísta. 5 -  Determinada pessoa e seus avatares distribuídos na Internet e poucas outras pessoas, citam sempre o número absurdo de 65 MIL FOTOS ou ARQUIVOS (eles nunca sabem precisar se falam de fotos ou de arquivos que incluem vídeos) que teriam sido encontrados no meu computador. Não vou deixar que isso passe em branco. Meu computador apreendido, um Positivo, tinha um HD de 80GB dos quais 74GB são utilizáveis. Destes 74GB, aproximadamente 95% estavam ocupados por todo tipo de arquivo, fotos pessoais e familiares, músicas, filmes, programas e outras coisas. Sou um usuário excessivo da memória do computador e  de seu 'storage space'. Quando iniciei os downloads do material meu computador não contava com mais do que 3 ou 4GB de espaço(embora eu possa estar enganado, não sei a quantidade precisa, mas estou certo de que não possuía mais do que 10GB de espaço livre para colocar qualquer coisa. Poucos dias antes, ao baixar filmes, vinha constantemente o aviso de que não havia espaço suficiente no disco rígido. Meu computador atual possui 650GB de espaço, eu o tenho a mais ou menos 1 ano e quase 100% dos discos rígidos estão ocupados e CONTUDO, contei 46 MIL arquivos totais. Quando um dos técnicos (que não é funcionário da Assistência Técnica para onde mandei meu computador que ficou lá o dia inteiro sem minha preocupação, pois o mandei para lá antes das 10 da manhã e só voltei às 17h20m) depôs em juízo, se mostrava nervoso e o juiz lhe fez perguntas que o deixaram ainda mais desorientado. Perguntou-lhe se havia fotos de pornografia adulta no lote. Ele respondeu que sim. O juiz então pediu que avaliasse quantas e ele disse "não tenho certeza" e com a persistência do juiz ele se saiu com "umas 15 ou 16". Em seguida o juiz lhe perguntou quantos arquivos (fotos ou vídeos, não me lembro a palavra usada) havia no computador, o técnico cujo nome, local de trabalho e residência conheço, não se mostrou ainda mais nervoso e cheio de chiliques nervosos e acabou dizendo "uns 60 mil" (o mesmo número aludido no programa do datena), ao que o juiz prosseguiu: "Você não tem certeza se são 15 ou 16 arquivos com imagens de adultos mas sabe dizer que são 60 mil arquivos no total? Como contou?" A resposta mais nervosa ainda, "A gente vai no log" ou algum termo assim. Bom, para resumir, do mesmo modo que minhas palavras: "Estou investigando e denunciando grupos e pessoas neo-nazistas, homofóbicos e racistas a mais ou menos 1 ANO E MEIO NO ORKUT, acabou, na mesa do juiz como sendo " o réu admitiu que baixava material pornográfico infantil a mais ou menos 1 ANO E MEIO", distorcendo completamente o que eu havia dito, certamente as palavras do técnico, que ou agiu de boa-fé ou da outra maneira alternativa e sob a orientação da promotora, se referiu ao NÚMERO TOTAL DE TODO TIPO DE ARQUIVO QUE EU TINHA NO COMPUTADOR e NÃO apenas aos de pornografia, dando a entender que haveria 65 mil arquivos SÓ de pornografia ilegal no meu computador. O absurdo salta aos olhos quando se considera que hoje, em meu HD de 500MB eu tenho meros 46.000 arquivos, ou seja, tenho menos arquivos em 6,25 vezes MAIS ESPAÇO eu tenho MENOS ARQUIVOS do que o que foi alegado que eu teria em meu computador de apenas 80GB e quase cheio até a boca quando iniciei os downloads! É notável que o número 65 mil foi comprado rapidamente pelo datena e sua equipe sensacionalista que jamais conseguiria manter uma audiência alta e vencer a concorrência e perderia dinheiro do lucro dos anunciantes se revelasse o número pequeno de arquivos: -O réu NÃO admitiu ter contatos de troca de arquivos com 'outros' pedófilos, - declarou que deveria possuir mais ou menos apenas entre 200 e 1000 arquivos ao todo, inclusive arquivos de vídeo, que exigiriam muito mais espaço livre de HD e que nos arquivos do computador do réu - NÃO FORAM ENCONTRADAS QUAISQUER PROVAS DE ELE MANTER CONTATOS AMISTOSOS COM PORNÓGRAFOS, -NÃO FORAM ENCONTRADAS FOTOS PESSOAIS DELE COM CRIANÇAS, -NÃO FORAM ENCONTRADAS CONVERSAS DELE COM CRIANÇAS -MESMO CONVERSAS INOCENTES- e  -NÃO HÁ NENHUM VESTÍGIO OU SUSPEITA POR PARTE DA POLÍCIA DE O RÉU, QUE NEM DE LONGE POSSUI UM LOTE TÃO GRANDE DE ARQUIVOS PORNOGRÁFICOS NO SEU COMPUTADOR, -NÃO HÁ NENHUM VESTÍGIO OU SUSPEITA DE ELE FAZER PARTE DE ALGUM GRUPO DE PORNÓGRAFOS -OU DE TER VÍTIMAS ENTRE SEUS PARENTES OU VIZINHOS. Mas é claro que a audiência do programinha marrom cairia, pessoas mudariam de canal. Isso é o que eu tenho a dizer, por enquanto, sobre o mito, a mentira deslavada e usada manipuladamente para impressionar com números extravagantes, a opinião pública e criar um clima de ódio e nojo por este que aqui escreve. Prints anexos mostrando o absurdo da existência de tal número de arquivos de fotos E VÍDEOS em tão pouco espaço num HD já quase totalmente ocupado ACRESCENTADO AOS ARQUIVOS NÃO ILEGAIS JÁ LÁ PRESENTES! estão disponíveis abaixo para que as próprias pessoas inteligentes, céticas e com senso de lógica e de justiça, formem a própria opinião.

Muito mais tenho a dizer, mas segundo um acordo informal por escrito com a Sra. Åsa Heuser, pessoa de um caráter tão firme e corajoso que jamais conheci tanto neste ambiente virtual quanto no Mundo Real, o mundo onde ativistas homofóbicos e anti-ateus não passam de pequenos homenzinhos covardes e patéticos (e não os Avatares que criam usando a arte do Ilusionismo Internético), fui tão sucinto e objetivo quanto consegui ser neste relato inicial. O acréscimo de detalhes e de links com prints aumentará a credibilidade do que escrevi aqui, e serão feitos posteriormente, mas por outro lado, segundo o conselho bem a calhar de Dona Åsa, o excesso de informações e discursos de indignação neste primeiro momento (contendo acusações com procedência e armadas de provas contra o tratamento que tanto eu, quanto tantos outras vítimas do sistema de trituração psicológica da polícia e judiciário brasileiro, infame entre órgãos internacionais que fiscalizam o cumprimento de normas internacionais de tratamento de pessoas sob a custódia da polícia e da justiça e da garantia da preservação de seus direitos fundamentais), poderia comprometer a leitura e compreensão dos fatos mais relevantes.  
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[Esta postagem conclui a parte principal da história de Haroldo Galves, mas poderá, e provavelmente haverá, acréscimos posteriores para esclarecer mais detalhes]
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Literatura afro-brasileira: a marginalização das letras escritas em tinta preta


Bule Voador 21 Jan 2012, 1:00 pm CET

Autor: Camilo Gomes Jr.

Também publicado em: Ontogenia Literária

"Cadernos Negros": Há mais de três décadas divulgado a literatura afrodescendente no Brasil.

Uma pergunta: quantos romances, contos ou poesias escritos por autores negros você leu, digamos, nos últimos cinco anos? Destes, quantos eram de autores brasileiros?

Entenda. Vivemos num país onde cerca de 7% da população é declaradamente negra e mais de 42% se declaram pardos (leia-se mulatoscafuzos — cuja linha ancestral apresenta mescla de africanos com europeus ou indígenas —, além de outras combinações como negros, índios e brancos, ou negros e orientais; por fim, também se incluem nesse grupo os caboclos — que não têm vínculo de ancestralidade com africanos). Podemos estimar que um percentual entre 30% e 40% da população deste país de dimensão continental se constitua de negros ou pessoas que têm alguma relação de ancestralidade com africanos. Estamos falando de dezenas de milhões de pessoas. Dezenas de milhões! No entanto, quando olhamos para nossa produção literária, uma coisa chama a atenção: cadê os autores afro-brasileiros? Quantos você conhece? Quantas de suas obras você já leu? De quantas gostou?

São perguntas interessantes porque, enquanto a Nigéria já tem um escritor negro (Wole Soyinka) galardoado com um Nobel de Literatura pela reconhecida qualidade de sua obra, enquanto os Estados Unidos têm entre seus escritores que já receberam o mesmo prêmio uma famosa romancista (Toni Morrison) que, autora de estilo e talento criativo elogiados por diversos críticos das mais variadas correntes, foca-se em desnudar a condição do negro e, em especial, da mulher negra na sociedade americana — sociedade que, a exemplo do Brasil, também tem uma história maculada pelo tráfico de negros africanos e por sua sujeição à escravidão —, não é apenas uma questão de ainda não haver um escritor afro-brasileiro ganhador de um Nobel (afinal, tampouco há um brasileiro branco que tenha sido laureado com um); a questão é que nós simplesmente ignoramos a produção literária de afrodescendentes no Brasil. Puxe pela memória e cite um autor que conheça. Busque na lista de mais vendidos por um único título, nacional ou estrangeiro, que se foque na condição do negro em sociedades que vivem o legado de um passado escravagista — pode até mesmo procurar por nomes famosos lá fora, como a já citada Toni Morrison ou Alice Walker, autora do romance A cor púrpura (José Olympio, 2009), sucesso internacional de público e crítica, cuja versão cinematográfica, de 1985, consta da lista dos grandes filmes dirigidos por Steven Spielberg. São tarefas inglórias, essas que lhe peço. A gente se esforça, se esforça, mas os resultados são poucos ou mesmo nenhum.

No Brasil, não se trata apenas de um enorme desinteresse de nosso grande pequeno público leitor, cuja maioria se ocupa de consumir livros de autoajuda e romancezinhos açucarados ao estilo de Nicholas Sparks ou como aqueles protagonizados pelo pseudovampiro machista de Stephenie Meyer. Mesmo a crítica especializada e as cadeiras de literatura dos cursos de Letras dão pouca relevância ou simplesmente ignoram a existência de obras nacionais escritas por negros e centradas na situação dos afrodescendentes no Brasil durante o período da escravidão e depois dela. Digo, é verdade que há um movimento em escolas e faculdades para que sejam lidas e estudas mais obras de autores africanos lusófonos, como as do biólogo e escritor moçambicano Mia Couto, por exemplo, talvez o maior nome da literatura contemporânea naquele país (e que, diga-se de passagem, é branco). Porém, é espantoso o número de estudantes de Letras com que nos deparamos corriqueiramente que não só ignoram a produção (e mesmo a existência) de escritores africanos negros ou brancos consagrados — como Wole Soyinka, John Coetzee ou Nadine Gordmer —, ou mesmo de grandes escritores dos países africanos de língua oficial portuguesa — como José Luandino Vieira (Angola), Manuel Lopes e Orlanda Amarílis (Cabo Verde), Abdulai Silá (Guiné-Bissau), Mia Couto, José Craveirinha e Paulina Chiziane (Moçambique), e o poeta Francisco José Tenreiro (São Tomé e Príncipe) —, como tampouco estão familiarizados com a literatura negra em geral, incluindo a que se produz no Brasil.

Sim, há literatura negra e de qualidade escrita neste país. E, não, não estou me referindo a Machado de Assis, o maior nome de nossa prosa contista e romanesca, que, embora sabidamente mulato, vestia-se como branco, expressava-se como branco, vivia rodeado de brancos, casou-se com uma branca e escrevia principalmente sobre personagens brancos, adotando o estilo de autores brancos. É fato: considerando-se desde a estética de sua obra até a invejável criatividade do escritor, não há dúvidas de que Machado foi um talento ímpar em nossa literatura. Isso é incontestável. Sem exageros, ele bem poderia estar entre os primeiros oito escritores a receber um Nobel nessa categoria. Porém, entendo como um tanto forçoso querer enxergá-lo como um escritor de literatura afro-brasileira. E o certo é que temos escritores bem mais apropriados para essa corrente de produção literária, dos quais eu gostaria de destacar sobretudo algumas mulheres (já que, se a voz dos autores negros brasileiros parece ter sido sufocada, mais inaudível ainda se faz a literatura ao mesmo tempo negra e feminina ou feminista). Gostaria de começar citando, por exemplo, o romance Úrsula, de 1859 — anos antes de Machado haver publicado seu primeiro livro de poemas, Crisálidas (1864), seu primeiro livro de contos, Contos fluminenses (1870), e muito antes de seu primeiro romance, Ressurreição (1872). A autora de Úrsula, Maria Firmina dos Reis, foi uma mulata de São Luís (MA), filha bastarda numa época em que isso era uma sina terrível de se carregar, e que, com muita luta, tornou-se professora primária aprovada em concurso público, escreveu para jornais de literatura e ainda fundou uma escola que oferecia ensino gratuito para turmas mistas de meninos e meninas — algo inapropriado para a mentalidade da época e que foi motivo de escândalo na provinciana comunidade de Maçaricó, onde ficava a escola, do que resultou à ordem para seu fechamento. O romance Úrsula foi escrito sob o pseudônimo de “Uma Maranhense”, e a obra passou por praticamente invisível aos críticos literários até meados da década de 1970, cerca de 115 anos mais tarde, quando os estudiosos tomaram contanto com uma edição fac-similar do livro. Além disso, convém destacar que, fora de um restrito círculo de acadêmicos e outros particularmente interessados na produção literária de afrodescendentes no Brasil, poucos já ouviram falar de Maria Firmina e de seu romance Úrsula. E, de uma perspectiva mais geral, é quase como se não houvesse negros e outros brasileiros de ancestralidade africana produzindo literatura neste país.

Capa de uma edição moderna de "Úrsula", de Maria Firmina dos Reis. O romance-mãe da literatura afro-brasileira, escrito em pleno Brasil imperial.

Mas basta pegar qualquer edição dos Cadernos Negros, série de livros atualmente organizados e editados pelo grupo Quilombhoje — nos quais se vem divulgado a literatura afro-brasileira desde 1978, especialmente com a publicação de poemas e contos —, para nos darmos conta de que existem muitos, em vários casos autores de admirável talento, produzindo versos e prosa de indiscutível qualidade. Infelizmente, tais poetas e escritores o fazem à margem de uma sociedade, que aparentemente não se interessa por ler histórias escritas e protagonizadas por negros. E não pense que é um exagero essa leitura que faço da notável aversão ou desinteresse pela literatura negra no Brasil.

Quem já ouviu falar de Conceição Evaristo, por exemplo? A grande maioria, não. Pois se trata de uma escritora afro-brasileira, autora de poemas, contos e romances, que já teve textos traduzidos e publicados em outros países, incluindo a tradução para o inglês de seu primeiro romance, Ponciá Vicêncio (publicado no Brasil em 2003, lançado em inglês em 2007, pela Host Publications). Já existem estudos sobre a obra de Conceição Evaristo no Brasil e no exterior, em português e em outros idiomas; todavia, ela continua uma ilustre desconhecida dos leitores deste país e mesmo de grande parte dos alunos e professores dos cursos de Letras de norte a sul. Seus dois romances escritos até o momento, Ponciá Vicêncio e Becos da memória (2006) foram publicados na última década por uma pequena editora voltada para obras afro-brasileiras. Ambos os títulos certamente tiveram uma primeira tiragem modesta, pois o número de livros impressos numa possível segunda edição depende do sucesso comercial da primeira. Houve uma segunda edição de Ponciá Vicêncio, em 2005, mas também deve ter sido uma tiragem relativamente tímida. Alguns estudiosos que tiveram acesso a uma (rara) cópia dos romances publicaram artigos, analisando-os e exaltando suas qualidades estéticas, a engenhosidade narrativa e a construção esmerada de personagens nem um pouco rasos. Assim foi, dentro e fora do país. No entanto, uma pergunta: em que livraria encontro hoje esses romances para comprar?

Quem tiver a curiosidade de pesquisar descobrirá que Becos da memória está esgotado na editora e não se pode encontrar em nenhuma livraria virtual. Nem em sebos eu encontrei algum exemplar. Já Pociá Vicêncio, apesar das duas edições, tampouco teve destino melhor. A tradução inglesa da Host Publications pode ser encontrada em várias livrarias internacionais, como a Amazon ou a Barnes & Noble, por exemplo. Tina, uma leitora de Owings Mills, no estado americano de Maryland, fez questão de deixar uma avaliação pessoal da obra na página da Amazon: deu-lhe cinco estrelas e comentou: “I loved this book. It was very interesting and entertaining. It’s now one of my favorites. This was my first time reading a novel from someone that was not born in the United States” ["Adorei este livro. Foi muito interessante e agradável. Agora, é um de meus favoritos. Esta foi a primeira vez que li um romance de alguém não nascido nos Estados Unidos"].

Conceição Evaristo (1946 - ): um grande nome da literatura afro-brasileira.

Conceição Evaristo não é a única escritora afro-brasileira de talento, cujo sucesso comercial e mesmo o reconhecimento acadêmico fica muito aquém do que merece. Parte do problema reside no eterno cinismo daqueles que, diante de quaisquer iniciativas afirmativas de grupos minoritários historicamente discriminados e prejudicados das mais diversas formas, reagem com falsa “indignação”, denunciando a suposta inversão do preconceito, gritando coisas do tipo: “Queria ver só, se eu resolvesse abrir uma editora declaradamente focada na produção de literatura branca, para divulgar autores brancos”. E o pior é saber que muitos leem coisas assim e balançam a cabeça, concordando, não vendo a falácia gritante que esse tipo de enunciado encerra. Brancos nunca tiveram as portas das editoras fechadas para eles. Brancos nunca tiveram problemas de rejeição da grande massa leitora, não interessada em histórias protagonizadas por… bem, por brancos!

Aliás, a cor da pele sempre esteve associada a uma história de valoração ou desvaloração social, uma história de traumas, de dor. Essa indelével “marca humana”, como a definiu o grande Philip Roth (cuja obra não se foca em afro-americanos, diga-se de passagem, mas sim na condição dos judeus na sociedade americana) em seu soberbo romance de mesmo título, no qual narra a história de um negro que nasceu com a pele relativamente clara e poucos traços negroides, e que tenta se valer disso para se passar por branco e ascender em seu meio social, em meados do século XX, nuns Estados Unidos marcados por forte segregação racial. A perene ideia da beleza idealizada nos moldes dos loiros brancos de olhos claros, a propósito, confere aos que têm esses traços a marca do sucesso no espaço social ou, pelo menos, o afastamento da suspeita gratuita de que mormente são vítimas aqueles que não os exibem. Quantos já ouviram histórias de negros barrados em espaços públicos ou privados, mas ao qual tinham direito de acesso? E quem já ouviu histórias semelhantes de brancos tornados gratuitamente em suspeitos e personæ non gratæ por conta da menor concentração de melanina em sua pele?

Se você nunca pensou nisso, pense. Muitos já viram o vídeo famoso de um estudo feito com crianças negras que são colocadas diante de bonecas, uma branca e outra negra, enquanto respondem a questões feitas pelos pesquisadores. A essas crianças são perguntadas coisas como “Qual boneca é a bonita?” (a criança aponta a branca), “Qual é a feia?” (a criança aponta a negra), e a pergunta mais avassaladora: “Com que boneca você se parece?” (a criança, os olhinhos sem alegria, a expressão contida, inocente, mas já marcada pela dor de viver sob um sistema de valoração estética que elege seu tipo como o avesso do ideal e desejável, aponta para a boneca negra). O interessante é que, bem antes dessa pesquisa, bem antes dessas imagens comoventes serem gravadas, uma romancista já havia pintado todo esse retrato sofrido numa história que ainda hoje é tida como uma das obras-primas da literatura afro-americana: O olho mais azul, romance de estreia da premiadíssima Toni Morrison, publicado em 1970 (no Brasil, a tradução foi lançada pela Companhia das Letras, mas também já se encontra esgotada). Nele, uma criança negra, a menina Pecola, já vitimada pelas desgraças em sua vida, vai desenvolvendo uma obsessão gradativa por ficar branca e ter olhos azuis. O livro destaca o forte impacto psicológico do racismo (e do abuso sexual) sobre uma vulnerável menina negra numa sociedade segregacionista.

De forma semelhante, o romance Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, também apresenta a deteriorização psíquica de uma mulher negra, no Brasil após a abolição da escravatura. Porém, desenvolve o tema por outra via e discute ainda outros aspectos, como, por exemplo, a alegada incapacidade do negro, sua suposta inferioridade intelecto-cognitiva em relação ao branco. Para citar um exemplo, num trecho em que é relatada a infância do pai de Ponciá, a personagem-título, deparamo-nos com um parágrafo interessante, que fala de quando o “coronelzinho” branco se dá conta de que o menino negro, com quem se divertia como se fosse um brinquedo, podia aprender tão facilmente quanto qualquer menino branco:

Pajem do sinhô-moço, escravo do sinhô-moço, tudo do sinhô-moço, nada do sinhô-moço. Um dia o coronelzinho, que já sabia ler, ficou curioso para ver se negro aprendia os sinais, as letras de branco e começou a ensinar o pai de Ponciá. O menino respondeu logo ao ensinamento do distraído mestre. Em pouco tempo reconhecia todas as letras. Quando sinhô-moço se certificou que o negro aprendia, parou a brincadeira. Negro aprendia sim! Mas o que o negro ia fazer com o saber de branco? O pai de Ponciá Vicêncio, em matéria de livros e letras, nunca foi além daquele saber (Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio, Ed. Mazza, 2003, p. 18).

O menino negro “nunca foi além daquele saber” porque o menino branco teve receio das consequências de se educar um negro. Um negro “com o saber de branco”? O que poderia fazer? Melhor não! Na verdade, o que o negro letrado poderia fazer (e muitos o fizeram) foi expressar, fazer ouvida, ou melhor, lida, a sua voz, a voz que, já de fora das senzalas, ainda ecoava lá de dentro, de suas prisões frias, sujas e escuras. Ao longo de todo o século XX e nestas primeiras décadas do terceiro milênio, vários autores têm surgido, publicando poemas, contos e romances em que a negritude é resgatada, revigorada e reafirmada com orgulho. Um orgulho que se justifica por se contrapor aos séculos de dor, de tortura e vazio existencial em que penaram seus antepassados. Nesse sentido, muitos se esforçaram por resgatar essa memória perdida, enterrada sob o cinismo da história dos que a contam, enquanto tentam fingir que o passado não foi. Ou que não foi como foi.

Hoje, é lamentável ter de admitir que tantos de nós jamais tivemos contato com um sem-número de obras contemporâneas dessa admirável literatura. Obras de reconhecível valor literário, mas que são ignoradas até mesmo pelos cursos de Letras do país, que dirá pelas livrarias, mais interessadas em potenciais sucessos de venda. É vergonhoso que obras recém-lançadas já estejam esgotadas, inacessíveis, sem previsão de novas edições numa tiragem maior. É ainda mais triste saber que, se literatura negra já não faz sucesso, tanto pior se for negra e feminista, com um enfoque maior na condição da mulher de pele escura no miscigenado “Brasil de todas as raças”, do falso “preconceito inexistente”. É uma pena que nomes como Conceição Evaristo, Geni Guimarães (autora de A cor da ternura, FTD, 1994) ou Ana Maria Gonçalves (e seu elogiadíssimo e volumoso romance histórico Um defeito de cor, Ed. Record, 2009), para citar apenas alguns poucos nomes, não estejam em destaques nas prateleiras das livrarias de todo o país. No caso da última, consola saber que ao menos está tendo um modesto sucesso comercial que lhe garantiu cinco edições da obra. Mas, ainda assim, é preciso bem mais. O Brasil precisa aprender com o exemplo de outros países que hoje se orgulham de uma linha vigorosa de literatura afrodescendente. E precisa também dar a devida atenção à produção das mulheres negras, que enfrentam a dupla condição de vítimas históricas de uma absurda discriminação para com a cor de sua pele e para com o gênero a que pertencem.

Bem, encerro este texto compartilhando com o leitor um conto maravilhoso de Conceição Evaristo, disponível na internet. É a minha homenagem a todas essas escritoras guerreiras em nosso Brasil onde os poucos que leem não se mostram muito interessados por ler o que se escreve em tinta preta nas páginas de nossa história, manchadas de sangue e suor.

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OLHOS D’ÁGUA (Conceição Evaristo)

Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando… De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?

Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo… Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela… Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lavalava, o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?

Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe.

Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco.Aquelas flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria, de uma maneira triste e com um sorriso molhado… Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.

Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se assentava na soleira da porta e juntas ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas, de que cor eram os olhos de minha mãe?

Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva… Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, porque eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela?

E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas a mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?

E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento, resolvi deixar tudo e, no outro dia, voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor de seus olhos. E assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser descoberta da cor dos olhos de minha mãe.

E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?  Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face? E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são oespelho dos olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocousuavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei, quando, sussurrando minha filha falou:

Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

(Conto publicado em Cadernos Negros, vol. 28, 2005.)

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Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa


Bule Voador 21 Jan 2012, 5:03 am CET

Fonte: Uma Visão do Mundo

Autor: Eduardo Patriota Gusmão Soares

Eu não gosto da religião organizada. Ainda que traga alguns benefícios, a balança da história pesa contra sua existência. Milhões pereceram em guerras religiosas ou que, entre outras coisas, tinham a religião como um dos componentes da discórdia entre dois ou mais grupos. Além disso, tem ainda o uso político que clérigos fazem da religião, nem sempre em prol de coisas construtivas.

Ainda assim, eu seria o primeiro a defender o direito de uma pessoa de praticar sua fé (desde que num âmbito privado). Se a pessoa quer orar para seu deus, que o faça em paz e na certeza de que ninguém lhe prejudicará por isso. Para sintetizar este pensamento, cito o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos que estabelece:

“Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.”

É importante frisar: as pessoas podem sim manifestar sua religião. Elas podem viver de acordo com os preceitos que julgam corretos. Se as mulheres decidem deixar o cabelo crescer e passam a usar saias na altura do joelho, ou se cobrem o corpo inteiro com uma burka, ou se os homens se abstém de sexo antes do casamento ou de carne de porco, não importa: as pessoas devem podem viver à sua maneira, desde que observados os direitos do próximo.

Mas alguns religiosos parecem não se conformar com o fato do vizinho venerar outro deus. Pior: há aqueles que não admitem que seu deus seja adorado de uma forma diferente, “herética”, àquela que a pessoa julga ser a correta. Este tipo de intolerância religiosa está acontecendo em diversos lugares do mundo neste momento, mas na Nigéria ganha contornos de guerra civil.

Centenas de pessoas precisaram deixar suas casas no norte da Nigéria, em meio a ataques do grupo extremista islâmico Boko Haram (que significa: “Educação Ocidental é um pecado”) que já deixaram pelo menos 31 mortos nos últimos dois dias. Em uma ocasião, homens armados invadiram uma reunião de um grupo cristão em Mubi, na região de Adamawa, fronteira com Camarões, e abriram fogo, matando pelo menos 17 pessoas. Depois desse incidente, os extremistas invadiram uma igreja cristã em Yola, capital de Adamawa, e abriram fogo, matando pelo menos outras oito pessoas.

Só no último ano, mais de 500 pessoas foram mortas pelo Boko Haram, que defende a implementação de uma lei islâmica no norte da Nigéria e quer a expulsão dos cristãos do seu território. No Natal, os extremistas realizaram uma série de ataques a bomba que deixaram 37 mortos só em uma igreja perto do capital, Abuja.

No Brasil, temos um governo central mais forte que a Nigéria, impedindo que a coisa chegue ao ponto que chegou por lá. Não obstante, temos tristes exemplos de intolerância entre religiosos, apenas para citar alguns do ano passado:

  • Josinaldo Gomes de Lima, 25, fiel da Assembleia de Deus, invadiu um sítio temático, o Arraial de São João, na cidade de Campina Grande (Paraíba), e quebrou imagens de santose danificou documentação histórica da cultura popular, como fotos e reprodução de poesias. Alguns objetos, como uma máquina fotográfica “lambe-lambe”, tem mais de cem anos. 
  • Duas tentativas de homicídio- uma contra um pai de santo e a outra contra um membro da religião afro – foram registradas pela Comunidade Tradicional de Terreiro da Cidade de Manaus. “Foram três homicídios e  três tentativas, além de um assalto à mão armada”. 
  • A Justiça do Trabalho de Mato Grosso condenou uma empresa de Cuiabáa pagar indenização de R$ 5 mil a uma trabalhadora que teria perdido uma vaga de emprego por causa da religião. A auxiliar administrativo Daniela Mendes Ribeiro passou por uma entrevista e pretendia trabalhar em uma ótica. Segundo ela, uma funcionária teria comentado com a diretora da empresa que a candidata seria Testemunha de Jeová, mas que não frequentava mais a religião. Foi quando o tratamento mudou. “Ela me disse que era ativa na igreja e que não poderia ter uma pessoa que não participava mais da religião. Então, por isso, a vaga não era mais minha”, conta Daniela. 
  • O MPF do Ceará abriu ação civil pública contra a entidade que representa as Testemunhas de Jeová no Brasil. O problema ocorre quando um leigo deixa a religião, seja por vontade própria ou como punição. Os “desassociados” passam a sofrer, por orientação da congregação, atos que restringem o seu relacionamento e convivência com os antigos irmãos na fé, mesmo que sejam parentes (irmãos, pais, cônjuges, etc), não sendo mais permitido que lhes dirijam um simples “Oi”, o que acarreta em desagregação familiar e social. Essa tática é adotada, segundo a pregação das Testemunhas de Jeová, para o desassociado “cair em si” e retorne a Jeová.

Pai de santo José Josivan, que teme mostrar o rosto por medo de represálias, foi esfaqueado duas vezes por vizinho

Hoje é Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Um dia para os religiosos refletirem e praticarem aquilo que a grande maioria prega: amor ao próximo. Tanto por isso, não devemos segregar, discriminar, maltratar ou causar qualquer mal a qualquer ser humano apenas porque ele não compartilha das mesmas convicções religiosas. Acima de tudo, devemos, sim, amar uns aos outros. Isso sim é construtivo. Qualquer deturpação desta filosofia básica de muitas religiões traz consequências negativas a todos os envolvidos.

Ainda devemos lembrar-nos dos ateus, estes descrentes, que também sofrem represálias apenas por terem uma cosmovisão diferente daquela da maioria religiosa. Por isso vale lembrar que a tolerância deve-se estender a todos. A convivência pacífica entre os diferentes é possível, benéfica e só tem a tornar o mundo um lugar melhor para todos.

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Grandes Nomes da Ciência: Clever Hans


Ceticismo.net 21 Jan 2012, 12:33 am CET

Os olhos castanhos acompanhavam o homem à sua frente. Pés duros estavam plantados no chão. Uma leve tremida nas costas de Hans passou desapercebida, assim como um gesto imperceptível do homem à sua frente. O homem faz uma pergunta a Hans e ele não titubeia: responde corretamente. As pessoas acham aquilo fantástico, mas também não sabiam que aquilo seria o início de uma pesquisa que demoraria muito tempo e ainda é levada nos dias de hoje. Hans não era bem um cientista, mas ele foi a base para se analisar como as pessoas podem dar respostas mediante requisições devidas. Em outras palavras, por causa de Hans, psicólogos estudaram como “dicas” e linguagem corporal poderiam influenciar na decisão das pessoas e como elas respondiam a determinadas ações, mesmo que inconscientemente. Hans não era médico, cientista ou psicólogo. Hans era apenas um cavalo, mas não um cavalo qualquer. Hans, o Esperto sabia contar… Ou pelo menos é isso que se supunha na época.

Der kluge Hans nasceu em cerca de 1895. Ele seria mais um cavalo de corridas e, no máximo, serviria para pessoas apostarem seu rico dinheiro nele. Mas em algum momento, Hans – da raça dos Trotadores Russos – mostrou que ele não entraria para a história de nenhum hipódromo. Ele não lutaria em nenhuma guerra. Seu nome foi escrito em livros de Ciência. Ele ficou conhecido pelo nome em inglês: Clever Hans ou, em português, Hans, o Esperto.

O destino de Hans foi mudado quando seu dono, um professor de matemática chamado Wilhelm Von Osten, começou a propagandear que Hans era esperto o suficiente para fazer contas e até mesmo soletrar palavras. Von Osten nasceu em 30 de novembro de 1838 em Schönsee, Alemanha. Ele se tornou professor de Ensino Fundamental e lecionou em algumas cidades. Em 1866, von Osten mudou-se para Berlim. No ano que o Brasil aboliu de vez a escravatura, von Osten comprou um cavalo para servir de transporte e puxar carroça. Anos mais tarde, ele comprou um outro cavalo: Hans e vida de ambos mudaria. Von Osten estudava frenologia, a pseudociência que arroga para si a capacidade de determinar o grau de inteligência de alguém por meio do formato de seu crânio. De algum modo, von Osten ficou convencido que Hans era inteligente, devido a uma protuberância na testa do animal (estou me referindo ao cavalo) e resolveu testar suas (do cavalo) habilidades matemáticas.

No alvorecer do século XX, Wilhelm Von Osten começou a fazer apresentações com Hans, o Esperto. Ele era capaz de distinguir 10 cores, sabia que a raiz quadrada de 16 era 4 e, através de batidas no chão representado letras, Hans era capaz de soletrar palavras. As pessoas ficavam maravilhadas e os estudiosos debruçaram-se sobre isso, buscando uma correlação disso com as teorias de um certo inglês chamado Charles Darwin. Por seus conhecimentos, Hans seria capaz de tirar uma excelente nota no ENEM, passar no vestibular e capaz de dar aula em muitas Universidades brasileiras.

O problema de von Osten é que algumas pessoas não acreditam em tudo piamente, sem o crivo do Método Científico. Depois da notícia sair no The New York Times, pesquisadores resolveram estudar o que acontecia com Hans. Uma comissão realmente entendeu que Hans era inteligente, mas isso não convenceu a todo mundo. Von Osten se dizia um cientista e não tinha nada a esconder, ele sabia que não havia nenhuma trapaça, e ele estava absolutamente certo. Ele realmente não fez nenhuma artimanha ou pegadinha. Quem fez foi seu cérebro, da maneira mais inconsciente possível.

A então chamada “Comissão Hans” era composta por 13 pessoas, sendo chefiada pelo professor de Filosofia (sim, você leu certo) Carl Stumpf. Eles estavam certos que Hans era “o cara”, digo, “o cavalo”. Como eles não passaram disso, Stumpf, creio que meio enfadado, passou a investigação para Oskar Pfungst, um biólogo e psicólogo, que trabalhava com ele. Pfungst não caiu naquela que o cavalo era espertão e resolveu fazer uns testes. Só que ele iria usar metodologia totalmente diferente. Ele usou testes duplo-cegos.

Recapitulando, um teste mono-cego é quando o cientista estipula experimentos, mas sabendo das possíveis variáveis que podem dar. Por exemplo, eu elaboro umas questões do tipo “Quanto é 2 + 2?”. Eu ainda posso armar alguma pegadinha do tipo “Qual é o último dígito de Pi?”. Eu sei, mas muitos não sabem o resultado. Bem, a verdade é que não há resultado, e o Wolfram Alfa me explica, como retardado que sou, que o número Pi não tem um último dígito.

Num teste duplo cego, nem o cientista nem o alvo a ser estudado sabem das possibilidades e do eventual resultado. É como eu mandar dispor vários baldes emborcados no chão, com um dado dentro de um deles. Então, eu entro na sala junto o com um médium e peço a ele para me indicar onde está o dado e qual é o número que está sendo mostrado na face superior. Obviamente, eu deixarei claro que a pesquisa não se importa se o médium tem dado em casa.

Assim como uma certa menina ficaria famosa por desmascarar pseudocientistas na década de 1970 (v. Emily Rosa), Pfungst estabeleceu experimentos onde Hans e seu dono estavam totalmente alheios do que seria. Quando o experimento não era feito por Von Osten, o resultado apontava que Hans, o Esperto, não se mostrou tão esperto assim. Já quando Von Osten era instruído a fazer as perguntas, Hans era brilhante. A chave, portanto, era Von Osten. Pfungst pediu para outras pessoas apresentarem as perguntas. Algumas delas sabiam as respostas, outras não. Quando as perguntas eram feitas por pessoas que sabiam a resposta, Hans acertava. O mistério estava na linguagem corporal das pessoas, que “denunciavam” a resposta. É o chamado Efeito Clever Hans.

É inusitado saber que hoje vivemos a era dos títulos, onde você tem que ser doutor, pós-doutor, senhor-professor-mestre-doutor-mago etc para ser reconhecido (às vezes, mesmo sem ter feito nada de útil. Oskar Pfungst nunca tirou grau de mestre ou doutor. No máximo, ganhou um título de Doutor em Medicina (Medicine Doctor, MD) honorário, mas isso não o impediu de publicar vários estudos sobre o efeito Clever Hans e de ganhar uma cátedra na Universidade de Frankfurt, Alemanha.

O Efeito Clever Hans é muito estudado e já foi identificado até mesmo em cães usados pela polícia para farejar drogas. Inconscientemente, policiais às vezes “dizem” aos cães onde supostamente está a droga. Em pessoas, é mais comum ainda, como não poderia deixar de ser. Um olhar, um menear de cintura etc podem dizer muita coisa, mesmo que a(o) dona(o) da “mensagem” não esteja com intenção de passar aquela mensagem… ou, pelo menos, não para uma determinada pessoa e sim para outra. Tal efeito foi testado pelo dr. John Bargh, professor de Psicologia Cognitiva da Universidade de Yale, e seus colegas descobriram que poderiam influenciar as pessoas alegando que a idade alteraria seu desempenho físico (artigo em PDF).

Somos muito influenciáveis. Só a expectativa de alguém, mediante sua linguagem corporal, nos diz o que é pra fazer… e fazemos. Nós não sabemos disso e a outra pessoa também não sabe. Isso, talvez, implique como muitos grupos podem sobrepujar outros grupos. A necessidade de conformidade nos faz agir e interagir de forma que nosso consciente não faz a menor ideia. E tudo isso, porque um certo cavalo batia os cascos no chão, há mais de 100 anos.

Clever Hans morreu em 1916, e entre um torrão de açúcar e uma maçã, ele de forma totalmente simples escreveu seu nome nos livros de Ciência, através de humildes batidas no chão.

O país maravilhoso


Ceticismo.net 20 Jan 2012, 11:38 pm CET

Imagine um país maravilhoso onde existem belas praias, belas mulheres, montanhas, a Amazônia e recursos naturais de darem inveja a qualquer outro país do mundo. Some isso a ausência de terremotos, furacões e tsunamis e com um clima quente.

Não, não descrevo o jardim do Éden nem uma planície de algum planeta distante no sistema solar de Zartax II. Falo de um país bem pertinho de você: o Brasil.

Num país como esse é de se surpreender que exista sofrimento, desigualdade social e a grande dependência de outros países no mundo, mas surpreendentemente isso acontece.

Diz a lenda que quando Deus estava criando os países, um anjo questionou sobre as verdadeiras intenções Dele ao criar o Brasil. O anjo perguntara se o povo que ali viveria não teria capacidade de monopolizar o mundo, já que esses recursos naturais poderiam ser muito bem explorados pelo povo.

Deus, por sua vez sorriu e disse para o anjo que não se preocupasse, pois iria colocar um povo tão ímpar que jamais iria conseguir dominar o mundo.  – Outra lenda diz que Deus estaria tentando provar que Darwin estava errado e que a evolução era uma piada, mostrando que os brasileiros, um dia, evoluiriam para uma civilização de educados e simpáticos macacos.

Sinceramente acho que os brasileiros descendem de  Leopold von Sacher-Masoch e analisando os governantes que os Brasileiros escolhem não é de se surpreender com essa afirmação. Ou então o povo é burro mesmo.

Claro que muitas pessoas vão querer argumentar com tais afirmações, mas vamos ver como é que estamos no Brasil em 2012.

Até agora já arrecadamos quase 100 bilhões de reais. Isso dá pra pagar o salário mínimo para quase todos os brasileiros vivos – e olha que nem chegamos no fim de Janeiro. Dá pra construir 2 mil hospitais com 31 mil metros quadrados de área construída ou ainda fornecer quase 75 milhões de bolsas-família. Pra você ter uma ideia, cada habitante do Brasil pagou R$ 515,00 reais em impostos.  Até o fim do mês esse valor pode chegar a 800 reais (exatamente a renda média do Brasileiro: R$ 800,00 na maior parte do país).

Claro que o governo tem muitos gastos, por exemplo, um salário de um Ministro no Superior Tribunal Federal é de R$ 26.700,00 e é pouco. O governo precisa aumentar em 20% esse salário para cobrir as perdas dos ministros. Dá pra comprar um Chevrolet Celta por mês e se os impostos fossem menores, dava pra comprar um VW Golf, mas se você não quiser um Celta, pode comprar uma moto Honda CG 125 por mês  - e jogar fora quando você enjoa dela; dá até pra comprar um iPhone 4s na Apple Brasil.

O teto de um salário significa que o máximo que um determinado órgão pode pagar e isso é definido naquele livrão que dá um monte de conselhos pro povo, mas que ninguém entende e interpreta errado: A Constituição. (achou que era a bíblia?).

A constituição define que o salário máximo de um servidor público deve ser igual ao salário dos ministros, mas acontece que nosso desgoverno pagava para quase 500 servidores um salário ainda maior e só essa sobra custa aos cofres uns R$ 3.000.000 por ano – isso foi só no Senado.

A um salário de R$ 1.000,00 – que é pouco -  daria pra se contratar 3.000 professores só com a grana que era desperdiçada com esse pequeno errinho de calculo.

Quando eu falo dos nossos impostos, geralmente eu cometo o erro de falar que nós somos mais ricos do que os americanos, comparando preços de coisas desnecessárias: Carros, Computadores, Video Games e outras coisas. Bem, você pode viver sem carro, sem computador ou sem vídeo game, mas você sabe quanto a gente paga de impostos na comida?

Viva sem comida!

Mas Guz, isso é culpa dos políticos, não é minha! Eu sou um cidadão de classe-média!

Pois é, eu sei. Mas você é quem banca tudo isso. E o pior: você causa tudo isso!

Veja bem, você é aquele cara que estaciona em vagas para deficientes. Você é o cara que dá um jeitinho pra burlar a Lei Seca; Você dá uma graninha pro guarda não te multar; Você rouba bala nas lojas americanas.

O pobre líder comunitário que vive na favela, na primeira oportunidade tenta levar vantagem nas costas dos próprios moradores da favela, vendendo as casas doadas/vendidas pelo Governo Brasileiro. E ao invés de distribuir a grana para o pessoal da favela, o cara comprou uma casinha de 350 mil reais e vários carros.

Claro, a culpa não é do PT. A culpa é sua, caro amigo, que senta a bunda na cadeira, reclama da vida e hipocritamente fica chocado cada vez que uma notícia sobre corrupção é publicada.

Certa está a Luiza, que desistiu do Brasil e foi lá pro Canadá.

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